domingo, 16 de maio de 2010

Lançamento - 29 de Maio
16:00 horas
Convento dos Capuchos - Almada
Com a presença do senhor Bispo de Setúbal,
D. Gilberto dos Reis, autor do prefácio.
Edição da Câmara Municipal de Almada.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Prenda de anos


“Vais ter a melhor prenda que alguma vez te dei. Sim, nos anos”.
Largou esta sentença e saiu. Verdade, verdadinha, as coisas entre nós não iam pelo melhor, com aquela parvoeira da Ana sobre as namoradas anteriores. Não liguei à conversa da prenda, como não ligo grande coisa aos aniversários.
Uns dias depois, voltou ao assunto: “Aquele alfarrabista teu amigo é na Rua do Passadiço, não é?” A coisa começava a ser mais interessante, pensei, ao responder-lhe que sim, lembrando-me que devia dar um telefonema ao velho Martinho. “Há um tempão que não o vejo”, acrescentei, sem a certeza de ela me ter ouvido.
Uns dias depois, no escritório, tinha um recado à minha espera. Num cartão de visita, manuscrito: “Tenho lá um molho de cartas, mesmo ao teu gosto. Tenho uma oferta, mas já sabes – tu primeiro. Aparece”. Por baixo, um “M.” mais rococó do que era costume no Martinho. Peguei no telefone e liguei-lhe. “A cliente está mesmo decidida”, atirou ele, em começo de conversa, “sem esforço nenhum, vendia-lhe as cartas por uma quinhentola. Para ti, são trezentos, e tu estás primeiro, meu querido, como sempre! A louraça volta cá à tarde com o dinheiro na mão. Sabes que até parece a tua letra, pá?” Senti um sobressalto. Ainda lhe disse que não podia ser, só para ser minha a última palavra, como se ele, ou eu, ligássemos a essas coisas. Resolvi passar pelo Martinho antes do almoço.
Pelo caminho telefonei à Ana, com um convite sincero, para um chá, “aí pelas cinco”. Falou-me de um compromisso à tarde e que não tinha a certeza de estar despachada a essa hora. Fiquei com a certeza de quem era a “louraça do Martinho”.
Antes das três liguei para a Alfarrábios e Simpatia. “Estou com uma cliente; devolvo-te a chamada dentro de meia hora”, foram as instruções do livreiro-antiquário. Liguei-lhe às quatro. “Diz lá, meu. As cartas? Já as despachei. Como não estavas interessado. Não me digas que…” Conversa de m., a do Martinho. Grande traidor! Nem lhe disse que me dispunha a pagar os tais 300 ou os 500 ou o que me pedissem, não para as ter, mas para que não fosse parar a mãos erradas o maço das cartas que, num namoro de seis meses, eu tinha escrito à Rosalina, a miúda mais leal que alguma vez tive.
Uma imperceptível alteração de tensão convenceu-me de que eu ficara preocupado. As peças do puzzle encaixavam todas e isso não era uma boa notícia. Tempos difíceis, era o que era – o dia do próximo aniversário prometia e eu já começava a antever a cena do rompimento, a apresentação aos pais de uma nova namorada e a sugestão de reprimenda da mãe, que apesar da experiência acumulada, nunca mais ganhava calo: “Quando é que tu assentas, filho? Com esta, já são quantas? E tal, etecétera…”
No dia 15, fui-me deixando ficar na cama, numa expectativa cobarde de que a crise passasse ao lado. De mansinho, a Ana deu início aos rituais de aniversário: o “Parabéns a você”, o beijo da ordem – surpresa! um beijo a sério, daqueles tais – a prenda embrulhada. “Espero que gostes”. E, depois de uma pausa: “Não era bem isto que eu queria, mas aquele teu amigo deu descaminho a umas cartas manuscritas que eu lhe pedi para reservar.” Desembrulhei a prenda e disse-lhe que tinha gostado muito de “O fiel secretário do amor, ou nova collecção de cartas amorosas, tanto em prosa como em verso…”, edição de 1853, da Typographia Simão Ferreira, do Porto. Obrigou-me a jurar que era verdade que a prenda me tinha agradado; e eu jurei.
No escritório, à tarde, entregaram-me um embrulho. Dentro, o espólio completo da minha correspondência amorosa para a leal Rosalina. Ninguém me soube dizer quem tinha feito a entrega. O Martinho ainda hoje jura que não foi ele.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Livros de levar e trazer

Da Outra Banda, chegam a Lisboa “cacilheiros” e “catamarãs” carregados de livros. Vista do rio e da margem de lá, Lisboa é um deslumbramento de arrumação, moldando-se ao relevo que desce até ao cais da margem norte, envolta numa luminosidade que não deixa adivinhar-lhe o trânsito, as obras viárias, os sítios obrigatórios para os turistas, os idosos pobres que vivem mal, as casas degradadas, a segurança e o conforto das casas boas e dos condomínios fechados, ou aqueles tantos que dormem na rua – que diabo, digo eu, a esta hora já se devem ter levantado!

Em surdina, diz-se que tudo está muito mudado. No transporte também. Olhem para dentro do cacilheiro: até onde a vista alcança, toda a gente com um livro na mão, toda a gente a ler! Aqui o vizinho do banco da frente, caixeiro reformado, meu conhecido de vista há uns 30 anos, “enrolado” num clássico policial; na mesma fila, duas senhoras, uma menina, dois moços e três cavalheiros, “navegando” – se a vista não engana e por ordem – um Steinbeck, um Harold Robbins, um Cardoso Pires, a história de um estadista meio conservador, um Saramago, um Reverte, outro Saramago e um tal de que não se consegue ver o título. Nas filas mais atrás, é o mesmo, e igual em todo o barco, predominando as edições de bolso, as narrativas mais curtas, as colectâneas de contos, mas comparecendo igualmente a poesia, o policial, a ficção científica e a banda desenhada. Assim se navega, aqui onde começa o Mar da Palha, nesta carreira e nas outras, entre Cacilhas e o Cais do Sodré, e nos barcos do Barreiro e do Seixal.

É uma experiência recente, esta biblioteca de levar e trazer. Em terra de grandes arrojos de imaginação e de eficácia concretizadora, o mais complicado foi escolher o nome entre os 7.543 propostos. Ficou “Biblioteca de Viagem” (um nome que, segundo consta, não estava na lista, que, no entanto, ditou o número de livros em circularção - exactamente 7.543 livros.

Por trás deste sucesso, está um princípio muito simples: os cais de embarque, na margem sul, foram transformados em biblioteca, passagem obrigatória para se entrar no barco. Enquanto se espera, pode-se folhear um livro e, depois, levá-lo para consumir no caminho – para lá e, no fim do dia, para cá. Dois números deste sucesso: primeiro, o sistema electrónico de controlo e vigilância, em que foram activadas novas funcionalidades, detectou 3,2% de passageiros sem livro no primeiro dia; segundo, todos os livros levantados de manhã regressaram à base antes da meia-noite do próprio dia.

Não falta quem assegure que vão replicar a “Biblioteca de Viagem” nas redes de comboio e de autocarro da periferia norte de Lisboa.

Em Quinta-Feira da Paixão não se fala noutra coisa.

Com uma pontita de inveja, é verdade, decerto por não ter sido eu o pai da ideia, vou andar por aí, nos dias mais próximos, a dar fé. Não se dê o caso de tudo ser uma brincadeira deste 1º de Abril de 2010.

domingo, 28 de março de 2010

Zenão Lopes, sobre bibliotecas

Chegou aí um escrito do Lopes. Sem endereço e sem data. Cá vai, com licença de Vossas Senhorias.

(...) aqui vão umas variações telegráficas sobre bibliotecas e prisões bem mais interessantes do que essa essa história, que se conta, de eu ter estado preso, quando taparam o buraco da porta do Arquivo.
1. Prisão que se preze, tem a sua biblioteca. Na prisão de ..., cá na terra, o advogado João Vale e Azevedo fez trabalho voluntário na biblioteca. Fez bem. O facto de o também ilustre senhor Alphonse Capone ter feito idêntico voluntariado, umas décadas antes, em Alcatraz, ali à vista de São Francisco, não tira um cabelo de mérito ao nosso advogado.
2. O doutor Michel Garel era um respeitável especialista em manuscritos antigos, de créditos reconhecidos internacionalmente nos manuscritos hebraicos. Foi preso por causa de um - o H52 - do século 13, raro, de valor inestimável, desaparecido da Bibliothèque Nationale de France na entrada do século 21. No mercado da especialidade, o dito H52 chegou a cotar em 300 mil dólares, preço por que chegou a ser vendido, apesar de amputado em muitas páginas, ao que consta para esconder a sua distinta origem. Não consta que monsieur Garel tenha exercido de bibliotecário na prisão.
3. No melhor estilo gareliano, em versão portuguesa, o doutor Arnaldo Faria de Ataíde e Melo, funcionário superior da Biblioteca Nacional. Nos idos de 1948-49, o distinto personagem subtraiu da B.N. umas dezenas de obras, que chegaram a ser avaliadas em mais de 3o mil contos, um caso com um mediatismo incomum para a época. Vendidas em Lisboa, algumas das obras eclipsaram-se, de vez; outras voltaram à Biblioteca, umas tantas tornadas irreconhecíveis pelos tratos de mutilação sobre elas exercidos (num leilão, nos primeiros anos deste século, foi recuperada mais uma). Não chegou a ser condenado o doutor; nem se notabilizou como bibliotecário, na prisão, onde se apagou feito uma lástima de gente. Nos seus tempos de insuspeito, o doutor notabilizara-se por via da publicação de um estudo pioneiro sobre a "Arte de Furtar".
4. O senhor Junot, general de Napoleão, mas não maréchal de France, que ganhou fama de ladrão (não apenas) por se ter apropriado da nossa "Bíblia dos Jerónimos", não foi preso por isso. E a dita preciosidade só regressou à terra depois de o rei de França a ter resgatado por mais de 100 mil francos, pagos à viúva e herdeira do general de muitas estrelas, possuidor de uma biblioteca privada onde figuravam obras portuguesas de estalo, em especial mapas manuscritos, não se sabe se também levados de cá.
5. Num outro registo: Bonifácio A., se não me engano no nome, operário metalúrgico, foi preso como muitos outros "sindicados", na Primeira República Portuguesa, "por razões sociais" (que era o mesmo que dizer, em razão da sua militância sindical). Tendo arranjado uma ocupação paga, na prisão, mandava todas as semanas uma parte da respectiva remuneração, para ser aplicada no desenvolvimento da biblioteca do Sindicato da Metalurgia de Lisboa.
6. No rescaldo da não eleição de Humberto Delgado como presidente da República, em 1958, prenderam R. Cordeiro. O crime por que o mantiveram preso mais de 4 anos foi ter andado a formar bibliotecas nas colectividades da Cova da Piedade. Em Caxias e Peniche, que também frequentou, não havia biblioteca de que tomar conta.

Com esta, ala que se faz tarde. É bem possível que, um destes dias, volte a tão distintos registos.

Modestamente, vosso, do c.
Zenão

sábado, 20 de março de 2010

A criatividade d' O Suspiro atirada às urtigas

O concurso apelava à criatividade dos sócios, a quem se pedia que propusessem um título para o boletim do Grupo Desportivo e Cultural da Companhia de Seguros Tal; a lista dos títulos propostos seria votada pelos sócios, num processo democrático muito ao arrepio das regras vigentes ao tempo, no ano de 1972.

“Para ele concorrer, de certeza que foi para ganhar algum tostão", diria a mãe. O que tinha o seu fundo de verdade – para ganhar 5 tostões, o infante era capaz de tudo: de ir buscar um cântaro de água, na hora do calor, ou de ir escrever uma carta à avó sem fazer beiça, de ir comprar meio litro de petróleo à mercearia, dizendo, no fim, sem vergonha, “é para pôr na conta”. Seria até capaz de acreditar, pelos cinquenta centavos, na possibilidade de ganhar uma corrida à Rosalina Papoila, uma campeã local de corridas - lembram-se? Mas, talvez não; talvez não houvesse nenhum prémio em dinheiro e o infante fosse apenas empurrado pelo gosto da escrita.

No fecho da votação, os dirigentes do Grupo Desportivo tinham nas mãos um "terrível" problema: entre os 7 ou 8 títulos que tinham ido a votos, com nomes tão dignos para título de publicação – O Leme, “um título bastante forte”, O Segurário “bastante sugestivo” ou até “um título simples como Boletim de Desporto e Cultura” – a vontade soberana do pessoal tinha-se inclinado para O Suspiro do Mexilhão. As ânsias do promotor da iniciativa eram notórias e a modos que justificadas, pois quem seria capaz de pedir à Administração o subsídio para a edição mensal de um “pasquim” com tal nome?
A proposta era que o infante retirasse o título. Tanto mais que – o interlocutor foi muito claro nisso – um tal nome até “podia trazer problemas à Companhia, ao Grupo Desportivo e (quem sabe?) até ao autor do título. O Leme, por exemplo, é um bom título, e poderás lá escrever quando quiseres. E a gente dá-te o prémio, na mesma”, concluiu o Fernando M., deixando muito subentendido o nome do Ferrer, um colega publicamente referenciado como informador da "pide".
Encheu-se de brios, o rapaz. "Porque sim: o pessoal tinha escolhido o Suspiro do Mexilhão, provavelmente por brincadeira; ou para chatear - que na altura até dava gozo. Seguindo a sugestão do M., eu estava a defraudar os “mexilhões” que tinham votado no dito cujo; isso irritava-me, mas eu podia bem com isso. Agora, o título era bom e eles atreviam-se a mandá-lo às urtigas. Com licença, e vai de lhes chapar um 'Não' redondo na cara. E assim fiz, matando provavelmente à nascença um escritor-esperança, em minha opinião um rapaz com muito potencial. Olha, continuei nas cartas comerciais. O prémio? Era em dinheiro, e bom. Mas que me interessava isso? Olha os 25 tostões que me deram de prémio, numa corrida que ganhei a uma campeã absoluta. Eu que era perdido por ganhar uma "coroa" que fosse, aqueles vinte e cinco tostões não me souberam a nada. Porque eu de facto ganhei à Rosalina, em corrida, mas acho que foi por ela ter escorregado - e assim não dá gozo".

sábado, 13 de março de 2010

O buraco de Zenão Lopes


Era o guarda-mor dos Arquivos da Universidade, o mesmo cargo que nos Arquivos Nacionais tivera, séculos antes, um aparentado seu, de nome Fernão Lopes (lembram-se?). Foi na cidade de C., já há uns anitos.

Pêlo preto, bigodes impressionantes e orelhas espetadas, Zenão era um seguro de vida para aquela documentação toda. Coisas do tempo dos afonsinos e seus descendentes, de valor, cobiçadas por todo o tipo de bicharada (peixes de prata, mil-patas roedores de papel, ratos e ratazanas, e, por outras razões, insuspeitos e distintos investigadores da nossa praça). Andou por lá muitos anos, mas, pelos vistos, não os suficientes para o fazerem doutor; mas aprendeu que se fartou - a importância de certos papéis, a paciência de quem anda ao papel velho, os mil esquemas dos bichos para iludir um guardião, a arte do faz-de-conta-que-não-se-passa-nada, e até as vinte e duas maneiras de integrar no património pessoal um manuscrito que é propriedade pública.

Consta que se empanturrou mais de bichos que de literatura e história, mas é verdade que estava ali uma verdadeira alma de arquivista. Até um dia - nunca mais lhe puseram a vista em cima.

Sobre as razões do sumiço do guardião, disse-se muita coisa, sobretudo parvoíces - que ele se aburguesara, deixando-se adoptar por uma bruxa da região (que todas as bruxas, como se sabe, têm o seu gato preto) ou que tinha entrado para uma casa, onde o adoravam pela sorte, em dinheiro e não só, que tinha trazido à família (gato preto em casa é sorte garantida, dizem), ou que mudara de cidade para se dedicar aos estudos de genealogia. Falou-se também na história do buraco - "num país decente, desabafava um antigo chefe-arquivista, "se viesse a saber-se como a bicharada do papel, cá no Arquivo, se tem banqueteado desde então, seria o fim da carreira burocrático-administrativa de um 'Senhor Fulano de Tal', um malandreco a caminho de ser ministro".

A porta do arquivo tinha um buraco, em baixo, como a porta da casa da minha avó Maria do Rosário e quase todas as de lá da terra. Era a porta por onde entrava e saía o gato-arquivista, a sua "janela" de comunicação com o mundo. Mandar tapar o buraco, do lado de fora, foi, porventura, a primeira grande obra do futuro ministro, recém-nomeado director do Arquivo da Universidade. Esteve mais de oito dias sem poder sair, o nosso Zenão.

Foi depois disso que nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima; mas, para mim, o que o levou àquilo, não foi o buraco. Foram os ratos.

Já tinha começado um tempo antes, a invasão dos ratos. Primeiro, quando começou a ver aquilo, um ratito agora e outro mais logo, Zenão Lopes limitou-se a ficar indiferente, como se não fosse nada; depois, vieram muitos, muitos mais. De tal forma que até os mais empedernidos e gastos investigadores da "casa" traziam o seu - uma verdadeira praga.

E ele começou a sentir que os tempos já eram outros. Mais por amor próprio, que por instinto de sobrevivência, resolveu zarpar dali - não fosse o futuro ministro mandá-lo substituir por um gato electrónico. "Safa!"

domingo, 7 de março de 2010

A missa breve que não foi

Tal como acontece com as sopas, há missas e missas. Falemos das breves (em latim, missa brevis), que suprimem algumas partes menos (digamos assim) interessantes, restringindo-se por exemplo ao Kyrie, ao Credo, ao Sanctus e ao Agnus Dei.

Algumas obras primas desta espécie dão fama a uns tantos personagens – João Sebastião Bach, W.A. Mozart, Benjamin Britten ou Vytautas Miškinis, um rapaz do meu ano –, uma lista apesar de tudo bastante restrita, onde poderia constar pelo menos mais um nome, o do padre Tomaz da Conceição Ramalho. Se a sua excelentíssima afilhada tivesse sabido ficar calada.

Foi no Verão de 68. Salazar já tinha caído da cadeira, mas o país ainda não sabia. As férias grandes corriam mansas e plenas de tédio; como quase todos os da sua idade, o infante arrastava um enorme cansaço de não fazer nada, as semanas passando sem história, nem memória. De obrigações, apenas a de ir à missa todos os dias, um sacrifício imposto pela comunidade aldeã ao futuro padre que não haveria de ser.

Na igreja da terra, o ritual da missa de semana, igual à de domingo, apenas sem a homilia secante. A assistência também era diferente, umas oito a dez mulheres, se tanto. Oficiante, o padre Tomaz, acusando o desgaste dos seus mais de oitenta anos, tendo a ajudá-lo nos actos um rapazinho pouco seguro de vir a fazer carreira trajado de batina e outra paramentaria sacra. Como sempre, naquela manhã, o padre Tomaz cumpria a função com a exactidão de funcionário. Com mais de sessenta anos de ofício, dizia a missa em português com a mesma desenvoltura com que o fizera, tantos anos, em latim.

Tudo normal, sem nada a assinalar. Até àquele momento.

Cumprido o Confiteor (“Confesso a Deus todo-poderoso e a vós irmãos, que pequei …”, vocês lembram-se), o padre Tomaz lançou, resoluto, o Pai Nosso, saltando por cima do Gloria e das entediantes leituras da Epístola e do Evangelho. O infante sentiu um ligeiro sobressalto, mas deixou andar, como se tudo aquilo fosse normal – que, em verdade, em verdade vos digo, aquele pequeno salto do oficiante abreviava a função em 60% do tempo, um quarto-de-hora bem contado. E todos sabemos quão importantes são quinze minutos na vida de um adolescente.

Hesitante no princípio, a assembleia seguiu o padre Tomaz no Pai Nosso. Como se quisesse levá-lo à glória do clube restrito das missas breves. Onde agora estaria, de pleno direito, em tão boa companhia, ad aeternum.

Mas, não foi assim – dali da frente, sem sair do lugar, alto e bom som, a menina Maria de Jesus ordenou: “Oh, padrinho, agora não é o Pai Nosso, é o Gloria”. Todas as mulheres se calaram e o padre também. Segura de si – não se sabendo se convicta ou não do mal que acabava de fazer ao padrinho-padre – a Menina Maria de Jesus do senhor vigário (que era assim que a ela se referia toda a gente da terra) lançou, ela própria, o “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa-vontade…", seguida alegremente pelo coro das mulheres e depois pelo próprio padre.

Foi desta forma inglória que Tomaz ficou às portas da imortalidade. Ou porque “Deus escreve direito por linhas tortas” ou por outra razão que me escapa, nunca mais teve outra oportunidade.