“Senta-te e escreve o que te vou dizer”, dizia a mãe em voz de comando que não admitia réplica, tão pouco hesitação – é fazer logo e perguntar depois!
Ora essa! Como se o escrever exigisse posição sentada! Hemingway, o de "Fiesta", d' "O Lobo do Mar" e de "Paris é uma Festa" - os meus preferidos de toda a sua obra) - escrevia de pé e não consta que lhe faltasse onde se sentar. E não foi o único escritor com esse hábito, que eu saiba.
Essa gente da escrita tem as manias de qualquer um – numa certa parte da sua vida, Borges costumava guardar o dinheiro entre as páginas dos livros (em sua casa havia-os por todo o lado), a biblioteca convertida, assim, em banco privado desse homem cuja vida se plasma num pano de fundo feito de livros, como leitor, escritor ou como Guarda-Mor dos Livros da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, apesar disso capaz de conservar somente o que valia a pena (mesmo tratando-se de livros, que uma biblioteca não é um depósito de ferro-velho): Jorge Luís desfazia-se dos livros que não lhe interessavam, “esquecendo-se” deles onde calhava, em cafés ou no banco de um jardim.
O meu amigo A.B. comprava livros como fazia as compras lá para casa, sem distinguir o necessário do supérfluo: via, comprava, por impulso e sempre em quantidade que se visse – eu via-o mais como compulsivo e, confesso, no que respeita aos livros, essa sua atitude compungia-me. Numa das últimas em que me exibiu os resultados do seu mais recente raide predador, umas duas dezenas de volumes, de temática variada, concluiu que já ia em mais de oito mil volumes! Verdade se diga que cheguei a ter inveja do personagem – o dinheiro dele na minha mão daria outros frutos mais interessantes, menos quantidade, mas, seguramente, uma mão cheia de “coisas boas” – uns quantos alfarrábios dos tais, só um, acaso, muito suado e longamente desejado, que, desses, cada um tem os seus.
A.B. tinha o fascínio pela quantidade – de livros, quantos mais, melhor, como os contos de réis. Por aquele caminho, ia convertendo a casa da Cruz de Pau numa “Biblioteca do Congresso”: não os mais de 100 milhões de espécies da Library of Congress, entre manuscritos, mapas, fotografias e outros materiais não livro, 10 mil incorporações diárias; “uma coisa mais pequena, mas, ainda assim, “suficientemente grande para o nosso meio” (palavra do senhor).
Pensasse ele, a sério, nestes números e, decerto, se haveria de converter à sabedoria de Don Rigoberto (Mario Vargas Llosa – Los Cuadernos de Don Rigoberto, 1997), possuidor de quatro mil livros e cem imagens, entre litografias, xilogravuras, desenhos, óleos, aguarelas – nem mais um ou uma, cada nova aquisição determinando a saída de um exemplar existente, inflexível quanto ao número de espécies das suas biblioteca e pinacoteca. Os livros e gravuras rejeitados, Don Rigoberto, o das orelhas grandes, queimava-os, para não sujeitar outros a lê-los e a vê-las.
Não lhe cabendo em casa tantos livros, A.B. fez uma selecção dos menos interessantes e, sem a sabedoria de Borges, nem a coragem radical de Don Rigoberto, levou-os para uma sua casa, para os lados de Sintra, e lá os deixou entregues a ninguém – mais rigorosamente, aos ratos. Está averiguado que foi a humidade, o pó e a bicharada que enterraram as hipóteses de a Cruz de Pau vir a ter o nome escrito numa futura lista das maiores bibliotecas do mundo. Consta, por outro lado, que é do acto do meu amigo que procede o nascimento da primeira comunidade de ratos de biblioteca da encosta norte da Serra de Sintra.
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SOPA DE BELDROEGAS
Ingredientes:
4 alhos franceses
4 cenouras
2 cebolas
1 molho de beldroegas
2 colheres de sopa de azeite
Sal q.b.
Cortam-se os alhos franceses, as cebolas e as cenouras.
Levam-se ao lume no azeite, deixando refogar em lume brando.
Junta-se 1,5 litros de água morna, tempera-se com sal e deixa-se cozer.
Quando estiver quase cozido, juntam-se as beldroegas cortadas.
domingo, 19 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
Já puseste da saúde? ou as cartas para os tios de Lisboa
A avó começava a fazer o cerco muitos dias antes. Hás-de-me ir lá escrever uma carta para os teus tios", era a sentença repetidas as vezes necessárias, até me ter sentado numa cadeira, tendo à frente a mesa da sala e, nela, o papel da carta. A longa função ia começar! Na primeira linha, o local e a data, como mandava a regra: [Casal da Fraga, 12 de Maio de 1963]; nas seguintes, o [Meus queridos filhos] da ordem e os dizeres da saúde: [estimo que ao receberdes esta vos encontrais (sic) de saúde, na companhia de quem mais desejardes. Nós cá ficamos como Deus permite]. Ao lado, então, a avó já dormia, cumprindo-se, também nisso, o ritual associado às cartas para os tios, umas três ou quatro vezes, se tanto, em cada ano.
- Avó?!
E ela abria os olhos, para dizer:
- Já puseste da saúde? Diz que nós estamos bem.
E retomava o fio do sono, para desespero do infante-escriba, afrontado com a urgência do regresso à brincadeira.
- Isso já está, vó. Diga lá mais.
- Lê lá.
E ele lia aquele nada que estava escrito, avaliando o escrevente que, das quatro páginas do papel de carta, ainda nem uma estava meia. E a avó já dormia outra vez. Quando é que ele ia conseguir sair dali?
- Vó!
- Han? Ah, sim, diz que nós estamos bem.
- Já está, vó! O que é que escrevo mais?
A avó pensava um bocadinho e dizia, passando a mão esquerda pelos olhos e descendo-a pela cara:
- De noite, tinha assunto para quatro ou cinco cartas; agora não me vem nada à ideia. Diz que recebemos a carta dele e assim [Recebemos a vossa carta e por ela soubemos notícias e como estavam todos bem e com saúde, graças a Deus] e com isto se enchia a página da frente da carta.
Numa sacudidela, novas queixas da avó pela falta de assunto. E a função longe, longe de acabar.
- Vó, agora escrevo na folha a seguir ou salto?
- Como não me lembro o que é que se há-de dizer, salta logo para a outra. Pergunta lá se têm visto os teus outros tios.
Mansamente, a avó retornara ao sono e ele a não querer esquecer nenhuma palavra, que todas eram precisas para compor uma missiva com o mínimo de dignidade. Deixando em branco as quatro ou cinco primeiras linhas, escrevia: [Então tendes lá visto os vossos irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas, sobrinhos e sobrinhas e restante família? Então e eles estão bem? Estimo que estejam todos com saúde. Quando os voltardes a encontrar, dai-lhes recomendações nossas e dizei-lhes que temos muitas saudades de todos e que não se esqueçam de escrever à mãe e ao pai.]
- Vó, já escrevi dos tios.
Depois de uma pausa longa, acordada, a avó tornava-lhe:
- Ai que não me lembro mesmo de mais nada! E estou aqui a perder tempo, com tanto que fazer. Ainda tens muito para escrever? Deixa o resto dessa folha e passa logo para a última. Manda-lhes as despedidas, minhas e do avô.
[Sem outro assunto, despeço-me por hoje...]
O das letras nem cabia nele, gritando por dentro: "Malta, eu vou já para aí, é só acabar isto!"
[... com muitos beijos para todos, para os vossos filhos e restante família e cumprimentos a quem por nós perguntar. Recomendações e saudades do vosso pai e da vossa mãe, que vos deitam a benção, Francisco e Maria do Rosário.]
- Já está, vó!
- Já acabaste? Lê lá tudo.
E ele lia, ligeiro, com um pé já na escada, a avó acordada o tempo todo.
- Está bem - dizia ela. - Agora só falta fazer o envelope com a direcção. Onde é que eu guardei a carta que eles mandaram?
E levantava-se para ir à procura na gaveta dos garfos e das colheres, na mala da roupa, no baú do enxoval da tia mais nova, na mesa de cabeceira, no vão do postigo do quarto, em cima da mesa, ... em todo o lado, já a repetir os sítios. E era então que ele deixava de ouvir, lá fora, as vozes dos companheiros de bola.
"Lá se foi a desforra!"
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SOPA DE CEBOLA
Ingredientes:
3 cebolas grandes
2 colheres de sopa de manteiga
1 colher de sopa de farinha de trigo
250 g. de fatias finas de pão
125 g. de queijo de bola
Queijo do Alentejo ralado, caldo de carne e sal - q.b.
Cortam-se as cebolas em rodelas finas e cozem-se lentamente na manteiga, até começarem a corar.
Salpicam-se com a farinha, mexem-se e cobrem-se com bastante caldo.
Deixe ferver 10 minutos, para apurar.
Num tabuleiro Pyrex põem-se em camadas alternadas as fatias de pão torradas, fatias de queijo e colheradas de caldo com as cebolas, até terminarem os ingredientes secos.
Cobre-se tudo com o resto do caldo feito com as cebolas, que é indispensável ser abundante para as sopas não fiarem secas e duras.
Polvilha-se por cima com o queijo ralado e mete-se em forno forte durante 15 minutos para a superfície gratinar.
- Avó?!
E ela abria os olhos, para dizer:
- Já puseste da saúde? Diz que nós estamos bem.
E retomava o fio do sono, para desespero do infante-escriba, afrontado com a urgência do regresso à brincadeira.
- Isso já está, vó. Diga lá mais.
- Lê lá.
E ele lia aquele nada que estava escrito, avaliando o escrevente que, das quatro páginas do papel de carta, ainda nem uma estava meia. E a avó já dormia outra vez. Quando é que ele ia conseguir sair dali?
- Vó!
- Han? Ah, sim, diz que nós estamos bem.
- Já está, vó! O que é que escrevo mais?
A avó pensava um bocadinho e dizia, passando a mão esquerda pelos olhos e descendo-a pela cara:
- De noite, tinha assunto para quatro ou cinco cartas; agora não me vem nada à ideia. Diz que recebemos a carta dele e assim [Recebemos a vossa carta e por ela soubemos notícias e como estavam todos bem e com saúde, graças a Deus] e com isto se enchia a página da frente da carta.
Numa sacudidela, novas queixas da avó pela falta de assunto. E a função longe, longe de acabar.
- Vó, agora escrevo na folha a seguir ou salto?
- Como não me lembro o que é que se há-de dizer, salta logo para a outra. Pergunta lá se têm visto os teus outros tios.
Mansamente, a avó retornara ao sono e ele a não querer esquecer nenhuma palavra, que todas eram precisas para compor uma missiva com o mínimo de dignidade. Deixando em branco as quatro ou cinco primeiras linhas, escrevia: [Então tendes lá visto os vossos irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas, sobrinhos e sobrinhas e restante família? Então e eles estão bem? Estimo que estejam todos com saúde. Quando os voltardes a encontrar, dai-lhes recomendações nossas e dizei-lhes que temos muitas saudades de todos e que não se esqueçam de escrever à mãe e ao pai.]
- Vó, já escrevi dos tios.
Depois de uma pausa longa, acordada, a avó tornava-lhe:
- Ai que não me lembro mesmo de mais nada! E estou aqui a perder tempo, com tanto que fazer. Ainda tens muito para escrever? Deixa o resto dessa folha e passa logo para a última. Manda-lhes as despedidas, minhas e do avô.
[Sem outro assunto, despeço-me por hoje...]
O das letras nem cabia nele, gritando por dentro: "Malta, eu vou já para aí, é só acabar isto!"
[... com muitos beijos para todos, para os vossos filhos e restante família e cumprimentos a quem por nós perguntar. Recomendações e saudades do vosso pai e da vossa mãe, que vos deitam a benção, Francisco e Maria do Rosário.]
- Já está, vó!
- Já acabaste? Lê lá tudo.
E ele lia, ligeiro, com um pé já na escada, a avó acordada o tempo todo.
- Está bem - dizia ela. - Agora só falta fazer o envelope com a direcção. Onde é que eu guardei a carta que eles mandaram?
E levantava-se para ir à procura na gaveta dos garfos e das colheres, na mala da roupa, no baú do enxoval da tia mais nova, na mesa de cabeceira, no vão do postigo do quarto, em cima da mesa, ... em todo o lado, já a repetir os sítios. E era então que ele deixava de ouvir, lá fora, as vozes dos companheiros de bola.
"Lá se foi a desforra!"
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SOPA DE CEBOLA
Ingredientes:
3 cebolas grandes
2 colheres de sopa de manteiga
1 colher de sopa de farinha de trigo
250 g. de fatias finas de pão
125 g. de queijo de bola
Queijo do Alentejo ralado, caldo de carne e sal - q.b.
Cortam-se as cebolas em rodelas finas e cozem-se lentamente na manteiga, até começarem a corar.
Salpicam-se com a farinha, mexem-se e cobrem-se com bastante caldo.
Deixe ferver 10 minutos, para apurar.
Num tabuleiro Pyrex põem-se em camadas alternadas as fatias de pão torradas, fatias de queijo e colheradas de caldo com as cebolas, até terminarem os ingredientes secos.
Cobre-se tudo com o resto do caldo feito com as cebolas, que é indispensável ser abundante para as sopas não fiarem secas e duras.
Polvilha-se por cima com o queijo ralado e mete-se em forno forte durante 15 minutos para a superfície gratinar.
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domingo, 5 de abril de 2009
Azul ou vermelho, as cores da escrita, e depois a sopa de favas
A escola era ali na Praça, o centro do mundo conhecido, que a distância ainda estava por descobrir e o infinito do céu terminava, afinal, no recorte ondulado dos cabeços e vales da serra em volta.
Ela sentava-se à secretária; atrás, na parede, os dois presidentes - à direita, o do Conselho; o da República do outro lado, um Cristo crucificado entre ambos. E ela escrevia, numa letra notável, cheia, redonda, de uma regularidade impressionante. Que espanto vê-la a escrever, a caneta preta e verde feita pincel de artista, o traço rigoroso, mas fluente, lançando ao papel palavras azuis, pontos, vírgulas e outros sinais.
Que escreveria ela, a professora, tão compenetrada e séria, convertendo o acto num exercício de enorme gravidade? Quando escrevia, ela não estava ali; era como se tivesse entrado em outra dimensão, numa imaterialidade sem tempo, imune à devassa de uns olhitos deslumbrados (seriam os únicos?) numa carteira da fila da frente. De vez em quando parecia despertar e, numa meia ausência, passava o olhar pela sala e repreendia algum, se necessário; ao dos olhitos, perguntava: "Então, não fazes o teu desenho?" E ele submetia-se, momentaneamente, para, logo depois, voltar ao mesmo. E isto haveria de se repetir, uma e outra vez, até ela dar a obra por acabada, numa profusão de azul cosida ao branco do papel.
O traço, ao meu pai, saía-lhe visivelmente mais espesso, tanto na pedra, como na madeira. O lápis grosso afiava-o com a navalha. Gostava de lhe ver o encarnado na orelha (o azul, nem tanto), como em tempos vira ao senhor Fernandito, mestre carpinteiro de tectos e soalhos, o número um na armação do forro de uma casa. Ainda estava para nascer outro igual. O primo Clemente até podia sê-lo, não fora o estrago que nele fazia o vinho, e, pior, nunca se lhe viu um lápis na orelha, sequer na mão - riscos, se era preciso serrar direito, fazia-os com um prego. Uma heresia!
______________________________________
SOPA DE FAVAS
Ingredientes:
1 kg de favas
1 cebola
3 colheres de sopa de azeite
50 g de arroz
Sal q.b.
Leva-se uma panela ao lume com o azeite e a cebola picada, deixando refogar.
Junta-se a água necessária e as favas descascadas e lavadas.
Tempera-se com sal e deixa-se cozer.
Finalmente, deita-se o arroz, deixando acabar de cozer.
Ela sentava-se à secretária; atrás, na parede, os dois presidentes - à direita, o do Conselho; o da República do outro lado, um Cristo crucificado entre ambos. E ela escrevia, numa letra notável, cheia, redonda, de uma regularidade impressionante. Que espanto vê-la a escrever, a caneta preta e verde feita pincel de artista, o traço rigoroso, mas fluente, lançando ao papel palavras azuis, pontos, vírgulas e outros sinais.
Que escreveria ela, a professora, tão compenetrada e séria, convertendo o acto num exercício de enorme gravidade? Quando escrevia, ela não estava ali; era como se tivesse entrado em outra dimensão, numa imaterialidade sem tempo, imune à devassa de uns olhitos deslumbrados (seriam os únicos?) numa carteira da fila da frente. De vez em quando parecia despertar e, numa meia ausência, passava o olhar pela sala e repreendia algum, se necessário; ao dos olhitos, perguntava: "Então, não fazes o teu desenho?" E ele submetia-se, momentaneamente, para, logo depois, voltar ao mesmo. E isto haveria de se repetir, uma e outra vez, até ela dar a obra por acabada, numa profusão de azul cosida ao branco do papel.
O traço, ao meu pai, saía-lhe visivelmente mais espesso, tanto na pedra, como na madeira. O lápis grosso afiava-o com a navalha. Gostava de lhe ver o encarnado na orelha (o azul, nem tanto), como em tempos vira ao senhor Fernandito, mestre carpinteiro de tectos e soalhos, o número um na armação do forro de uma casa. Ainda estava para nascer outro igual. O primo Clemente até podia sê-lo, não fora o estrago que nele fazia o vinho, e, pior, nunca se lhe viu um lápis na orelha, sequer na mão - riscos, se era preciso serrar direito, fazia-os com um prego. Uma heresia!
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SOPA DE FAVAS
Ingredientes:
1 kg de favas
1 cebola
3 colheres de sopa de azeite
50 g de arroz
Sal q.b.
Leva-se uma panela ao lume com o azeite e a cebola picada, deixando refogar.
Junta-se a água necessária e as favas descascadas e lavadas.
Tempera-se com sal e deixa-se cozer.
Finalmente, deita-se o arroz, deixando acabar de cozer.
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sábado, 28 de março de 2009
Sopas de memória, com alguns versos
Escreveu o poeta:
Trago os tordos na cabeça desde os campos
d’Atalaia para pôr neste poema –
o vento deixava-nos à porta
ora uma luz rasteira ora um esfarelado
chiar de carros de feno,
dos ramos altos
a tarde caía nos cabelos,
vivíamos sem pressa rente aos lábios.
d’Atalaia para pôr neste poema –
o vento deixava-nos à porta
ora uma luz rasteira ora um esfarelado
chiar de carros de feno,
dos ramos altos
a tarde caía nos cabelos,
vivíamos sem pressa rente aos lábios.
(Eugénio de Andrade – Trago os tordos na cabeça, in O peso da sombra, 1982)
Quanto eu gostava de ter escrito isto!
Ou de saber aparelhar uma pedra, a golpes certeiros, nas mãos o pico bem aguçado, como vi o meu pai fazer, tirando da massa inerte e bruta do granito um banco de sentar ou os cunhais de uma casa.
Ou de saber fazer, à enxada, uma leira de cebolas, como só o meu avô Teodoro era capaz - uma obra-prima de geometria: regos direitos e cômoros em rigorosa simetria, a terra tão lisinha que parecia ter sido afagada com as mãos.
Abençoadas as mãos que têm o dom da poesia. Assim o disse Eugénio:
Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.
(Eugénio de Andrade – A arte dos versos, in Rente ao dizer, 1992)
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ALGUMAS SOPAS
Algumas sopas, de memória: a miga de batata, em casa da avó (tão desenxabida, meu Deus!), as sopas da Semana Santa, lá em casa, tão detestáveis como a sopa de favas; a sopa de feijão pequeno (a mãe ficava triste só de pensar nela), a sopa de beldroegas descoberta na primeira ida ao Algarve (lá em casa, as beldroegas só serviam para dar ao porco), o caldo verde que não comi enquanto usei bigode, e a sopa da matação, obrigatória em dia de matança do porco.
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