A escola era ali na Praça, o centro do mundo conhecido, que a distância ainda estava por descobrir e o infinito do céu terminava, afinal, no recorte ondulado dos cabeços e vales da serra em volta.
Ela sentava-se à secretária; atrás, na parede, os dois presidentes - à direita, o do Conselho; o da República do outro lado, um Cristo crucificado entre ambos. E ela escrevia, numa letra notável, cheia, redonda, de uma regularidade impressionante. Que espanto vê-la a escrever, a caneta preta e verde feita pincel de artista, o traço rigoroso, mas fluente, lançando ao papel palavras azuis, pontos, vírgulas e outros sinais.
Que escreveria ela, a professora, tão compenetrada e séria, convertendo o acto num exercício de enorme gravidade? Quando escrevia, ela não estava ali; era como se tivesse entrado em outra dimensão, numa imaterialidade sem tempo, imune à devassa de uns olhitos deslumbrados (seriam os únicos?) numa carteira da fila da frente. De vez em quando parecia despertar e, numa meia ausência, passava o olhar pela sala e repreendia algum, se necessário; ao dos olhitos, perguntava: "Então, não fazes o teu desenho?" E ele submetia-se, momentaneamente, para, logo depois, voltar ao mesmo. E isto haveria de se repetir, uma e outra vez, até ela dar a obra por acabada, numa profusão de azul cosida ao branco do papel.
O traço, ao meu pai, saía-lhe visivelmente mais espesso, tanto na pedra, como na madeira. O lápis grosso afiava-o com a navalha. Gostava de lhe ver o encarnado na orelha (o azul, nem tanto), como em tempos vira ao senhor Fernandito, mestre carpinteiro de tectos e soalhos, o número um na armação do forro de uma casa. Ainda estava para nascer outro igual. O primo Clemente até podia sê-lo, não fora o estrago que nele fazia o vinho, e, pior, nunca se lhe viu um lápis na orelha, sequer na mão - riscos, se era preciso serrar direito, fazia-os com um prego. Uma heresia!
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SOPA DE FAVAS
Ingredientes:
1 kg de favas
1 cebola
3 colheres de sopa de azeite
50 g de arroz
Sal q.b.
Leva-se uma panela ao lume com o azeite e a cebola picada, deixando refogar.
Junta-se a água necessária e as favas descascadas e lavadas.
Tempera-se com sal e deixa-se cozer.
Finalmente, deita-se o arroz, deixando acabar de cozer.
domingo, 5 de abril de 2009
sábado, 28 de março de 2009
Sopas de memória, com alguns versos
Escreveu o poeta:
Trago os tordos na cabeça desde os campos
d’Atalaia para pôr neste poema –
o vento deixava-nos à porta
ora uma luz rasteira ora um esfarelado
chiar de carros de feno,
dos ramos altos
a tarde caía nos cabelos,
vivíamos sem pressa rente aos lábios.
d’Atalaia para pôr neste poema –
o vento deixava-nos à porta
ora uma luz rasteira ora um esfarelado
chiar de carros de feno,
dos ramos altos
a tarde caía nos cabelos,
vivíamos sem pressa rente aos lábios.
(Eugénio de Andrade – Trago os tordos na cabeça, in O peso da sombra, 1982)
Quanto eu gostava de ter escrito isto!
Ou de saber aparelhar uma pedra, a golpes certeiros, nas mãos o pico bem aguçado, como vi o meu pai fazer, tirando da massa inerte e bruta do granito um banco de sentar ou os cunhais de uma casa.
Ou de saber fazer, à enxada, uma leira de cebolas, como só o meu avô Teodoro era capaz - uma obra-prima de geometria: regos direitos e cômoros em rigorosa simetria, a terra tão lisinha que parecia ter sido afagada com as mãos.
Abençoadas as mãos que têm o dom da poesia. Assim o disse Eugénio:
Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.
(Eugénio de Andrade – A arte dos versos, in Rente ao dizer, 1992)
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ALGUMAS SOPAS
Algumas sopas, de memória: a miga de batata, em casa da avó (tão desenxabida, meu Deus!), as sopas da Semana Santa, lá em casa, tão detestáveis como a sopa de favas; a sopa de feijão pequeno (a mãe ficava triste só de pensar nela), a sopa de beldroegas descoberta na primeira ida ao Algarve (lá em casa, as beldroegas só serviam para dar ao porco), o caldo verde que não comi enquanto usei bigode, e a sopa da matação, obrigatória em dia de matança do porco.
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