domingo, 17 de maio de 2009

Nas alturas do Cristo-Rei, em Almada


17 de Maio de 2009 foi dia do cinquentenário da inauguração do monumento a Cristo-Rei, em Almada. Missas e procissões, muita gente como há cinquenta anos.
Umas imagens de quem lá esteve.











No próximo mês, a publicação de "Por alturas do Cristo-Rei, em Almada", da autoria do biblio-servo que isto escreve, uma edição da Câmara de Almada. Com a surpresa de alguns episódios menos conhecidos, como se verá a seu tempo.
Até lá.

domingo, 10 de maio de 2009

Ler em pé (como introdução à sopa de batata)

O leitor praticante é um dependente e sabe-se quanta gente de bem caiu no vício, aparentemente sem lhe poder fugir, como outros dependem do álcool, do tabaco, da depressão. Para estes, a humana sabedoria inventou tratamentos e programas de cura, tratando-os como doentes; àquele, o dos livros, não se chegou a tanto e deixam-no andar por aí, se é que dão por ele!
É sabido que, ler demais, faz mal aos olhos; em miúdo e adolescente, apontavam-me os que lidavam com letras e números – todos usavam óculos, sinal de mau uso do primeiro dos sentidos. Havia então – não sei se ainda há – um espécime característico, referenciado com certo desdém, com mistura de comiseração e de vade retro: o que está sempre a ler, mesmo nas circunstâncias mais despropositadas e nos momentos menos próprios. Livrasse Deus um homem de ter um filho assim!
Um vulgar leitor que não tenha, sequer, atingido, o grau 3 da dependência, pratica o acto no maior descuido: quantas páginas se lêem, na rua, de noite, debaixo de um poste de iluminação pública ou aproveitando a luz de uma montra iluminada, enquanto se espera por alguém.

Noutro tempo, um certo conhecido meu, pai de filhas, lia romances inteiros numa livraria de Lisboa onde ia na hora do almoço, à razão de dez páginas por dia, como sobremesa comida em pé. De tempos a tempos, mudava de fornecedor. Havia casas em que o ignoravam e, noutras, fingiam não dar por ele. Altas estratégias! Pelo seu lado, consumo, sim, mas sem custos – por regra, usava um livro, digamos durante 20 ou trinta dias, sem o depreciar, devolvendo-o à estante impecável, como se nunca tivesse sido aberto. “Havia lá alguma razão para alguém embirrar?”, confessava Orlando. “Até um dia…”
Chegou a temer o pior, quando viu o dono do estabelecimento vir para ele, na livraria. Num ápice, estava o homem a elogiar-lhe a gentileza de quem cumprimenta sempre ao chegar e se despede todos os dias com o “até amanhã” da ordem, o seu gosto de ler e o cuidado com que tratava os livros.
Ouvido aquele intróito, era tempo de receber a bordoada! “Mas, nada. Não disse mais nada e foi lá para dentro; quando saí, ainda com livro seguramente para mais uma semana, não tive ninguém a quem dizer “até amanhã”.
Aparentando, no dia seguinte, passar por ali à procura de nada, Orlando deu com a livraria fechada. Por causa das dívidas, dizia-se à boca cheia; mas o Lê-em-Pé quis antes acreditar na versão (tudo indica posta a circular pelo proprietário) de que a polícia ordenara o encerramento depois de aí ter feito uma grande apreensão de livros.

Bom homem, aquele, que chegou a pensar que o comércio dos livros lhe podia dar de comer!

Abril 2006
________________________________
SOPA DE BATATA
Ingredientes
500 g. de batatas
3 cebolas
1 dl. de azeite
1 ramo de salsa
Folhas de hortelã
Água
Pimenta (para quem goste)
Sal q.b.
Corte as cebolas em rodelas finas e refogue no azeite.
Quando o refogado estiver pronto, junte as batatas cortadas às rodelas e salsa, cobrindo tudo com água suficiente para cozer.
Tempere com sal, a gosto, sem exagerar, e deixe cozer.
No fundo de uma terrina, coloque fatias de pão e por cima as folhas de hortelã.
Deite por cima o caldo com as batatas.
Tape e deixe estar um pouco. Depois, sirva.

domingo, 3 de maio de 2009

De como o mano borrou a escrita (depois, caldo de couve portuguesa)

A mim, agora, os versos saem-me em jorros, sem esforço, como uma diarreia.
António Ramos Rosa, na casa dos oitenta anos, em entrevista ao JL.

O mano foi excepcionalmente fluente na arte da escrita, que eu saiba pelo menos uma vez. Ele teria sete anos, estava na primeira classe, e eu mais dois.
Quando, naquela tarde de sol, nos viu de regresso a casa umas duas horas mais cedo do que era costume, a mãe não podia acreditar - as calças do benjamim escritas de cima a baixo e os sapatos também.
Saímos da escola à pressa, a minha mão na dele, a espaços; a professora tinha dado com ele muito parado, descobrindo depois que ele estava em urgências de "ir lá fora", sem pedir. Quando descíamos as escadas em direcção aos sanitários públicos - que na altura já os havia, precários, um pouco distantes dali, na Fonte Velha - a urgência sempre em crescendo, sem dar tréguas, a máquina intestinal do mano em roda livre, qual fenómeno da natureza, incontrolável pelos mecanismos da vontade ou da vergonha. "Aguentas?", foi a pergunta repetida até três quartos do caminho andado. Mas, quando o lugar de destino já estava mesmo ali, romperam-se as guardas do pobre, incapazes de conter por mais tempo a revolução interna que nos levara àquela parte.
Ao menos não havia gente por perto. A escritura foi obra de escassos segundos, em andamento lento, mas contínuo.
Impossível eliminar os frutos daquela abundância, traduzindo, limpar o fato e o calçado do agente e vítima de tal desmando. A única solução era fazer, ligeiros, o caminho de casa, por ruas e caminhos menos propícios a encontros, o infante em porte da maior compostura e dignidade, o acompanhante controlando uns insinuantes assomos de riso, sempre que lhe vinha à cabeça a judiciosa formulação, em palavras, dos momentos antecedentes - o mano borrara a escrita toda!

Agosto 2005
_________________________
Caldo de couve portuguesa

Ingredientes
250 g de toucinho entremeado
250 g de batatas cortadas aos quadrados
1 couve portuguesa cortada às tiras
1 cebola
2 colheres de azeite
1 dente de alho
Sal q.b.

Coze-se a carne e a cebola descascada, mas inteira, numa panela com água.
Quando a carne estiver cozida, retira-se a cebola.
Juntam-se as batatas, a couve, o alho, o azeite e tempera-se com sal.
Deixa-se cozer.
Antes de servir, retiram-se as batatas e desfazem-se com um garfo, juntando-as de seguida ao caldo.

domingo, 26 de abril de 2009

A mala de Joaquim Maia, livreiro

Joaquim Maia se chamava o livreiro; não tinha loja aberta – uma arrumação, se tanto, esconsa, ali no bairro de Santos, a Palhavã, em Lisboa, nos idos de 1970, quando o tempo da “evolução na continuidade” do Professor Marcello já fora e “o Botas” já batera as suas. Os dias, dividia-os o homem entre os armazéns das casas editoras e as empresas onde trabalhavam as suas dezenas de fregueses.
De tempos a tempos, lá nos aprecia o amigo Maia, levando algum livro encomendado na visita anterior e as capas das mais recentes novidades editoriais. Os actos decorriam ali ao balcão, ele do lado de fora, como se fosse um cliente, e nós – uns dois ou três, revezando-nos – da parte de dentro, sem abandonar o espaço de trabalho.
Feitas as entregas e recolhidas as novas encomendas, passava-se ao terceiro acto, protagonizado por um ou dois livros extraídos do fundo da enorme pasta do livreiro – proibidos, com a edição já apreendida pela polícia ou a caminho de o ser. Os exemplares disponíveis ficavam sempre lá, que, em tempos tais, proibido era sinónimo de vendido.
Dessas colheitas ficaram-me um Canto Novo, com versos do José Afonso-cantor, e um seu meio-irmão com título de O nosso amargo Cancioneiro, reunindo a poesia cantada fora do circuito legal, e outras coisas pouco alinhadas, como romances do Alves Redol, as peças do Bernardo Santareno, a nada desalinhada prosa do José Gomes Ferreira, as "Novas Cartas Portuguesas", das Marias Teresa Horta, Isabel Barreno e Velho da Costa, o "Maria de Nazaré", do padre Mário de Oliveira em crise de vocação, os “Cadernos Dom Quixote” todos, a "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica", com algumas pérolas logo memorizadas pela malta, para serem repetidas até fartar (o Botto do “Nunca te foram ao c.,/ nem nas perninhas, …”, o mais citado de todos, a propósito, ou não). O infalível engodo do “proibido” até me levou a comprar um desinteressante e tedioso "O Pavilhão dos Cancerosos" e um "Portugal e o Futuro", que não cheguei a ler.
Visita do livreiro sem terceiro acto soava a meia desfeita. Isso explica, em grande parte, a falência, depois do 25 de Abril de 1974, do modelo de negócio que, durante anos, dera de comer à família Maia e assegurara à malta a leitura de cada dia. Com consequências, está bem de ver: o livreiro estabeleceu-se, passando a vender cromos, cadernetas, pastilhas e congéneres; entre a freguesia, parte dela nunca mais comprou um livro que fosse; quanto ao escriba, perdeu de vez a vergonha e passou a frequentar as livrarias.
........................................................................................
É sempre fastidiosa – mas educativa – a leitura das listas dos livros proibidos. O regime anterior a 25 de Abril de 1974 (a lista completa está em Livros proibidos no regime fascista, publicada em 1981), proibiu Marx e os “patriarcas socialistas”, mas também Bertrand Russel, Flaubert, La Fontaine, Rabelais, Steinbeck, Graciliano Ramos e Jorge Amado, Torga e muitos portugueses, sendo Tomaz da Fonseca o mais proibido de todos. Até uma "História de Portugal", versão vulgata, do António Sérgio, e um "Vimaranis Monumenta Historica", do conservador Alfredo Pimenta, muito lixo, pornográfico ou não, o José Vilhena incluído.

_________________________
Sopa de nabiças

Ingredientes
2 l. de água
1 molho de nabiças
0,5 dl. de azeite
500 g. de batatas
1 cebola
Sal q.b.

Cozem-se as batatas e a cebola na água previamente temperada com sal.
Quando estiverem cozidas, reduzem-se a puré, com a batedeira.
Leva-se novamente ao lume e, quando levantar fervura, juntam-se as folhas de nabiça, previamente lavadas, e o azeite.
Deixa-se cozer durante 10 minutos e está pronta a comer.

domingo, 19 de abril de 2009

Ratos de biblioteca

“Senta-te e escreve o que te vou dizer”, dizia a mãe em voz de comando que não admitia réplica, tão pouco hesitação – é fazer logo e perguntar depois!

Ora essa! Como se o escrever exigisse posição sentada! Hemingway, o de "Fiesta", d' "O Lobo do Mar" e de "Paris é uma Festa" - os meus preferidos de toda a sua obra) - escrevia de pé e não consta que lhe faltasse onde se sentar. E não foi o único escritor com esse hábito, que eu saiba.

Essa gente da escrita tem as manias de qualquer um – numa certa parte da sua vida, Borges costumava guardar o dinheiro entre as páginas dos livros (em sua casa havia-os por todo o lado), a biblioteca convertida, assim, em banco privado desse homem cuja vida se plasma num pano de fundo feito de livros, como leitor, escritor ou como Guarda-Mor dos Livros da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, apesar disso capaz de conservar somente o que valia a pena (mesmo tratando-se de livros, que uma biblioteca não é um depósito de ferro-velho): Jorge Luís desfazia-se dos livros que não lhe interessavam, “esquecendo-se” deles onde calhava, em cafés ou no banco de um jardim.


O meu amigo A.B. comprava livros como fazia as compras lá para casa, sem distinguir o necessário do supérfluo: via, comprava, por impulso e sempre em quantidade que se visse – eu via-o mais como compulsivo e, confesso, no que respeita aos livros, essa sua atitude compungia-me. Numa das últimas em que me exibiu os resultados do seu mais recente raide predador, umas duas dezenas de volumes, de temática variada, concluiu que já ia em mais de oito mil volumes! Verdade se diga que cheguei a ter inveja do personagem – o dinheiro dele na minha mão daria outros frutos mais interessantes, menos quantidade, mas, seguramente, uma mão cheia de “coisas boas” – uns quantos alfarrábios dos tais, só um, acaso, muito suado e longamente desejado, que, desses, cada um tem os seus.

A.B. tinha o fascínio pela quantidade – de livros, quantos mais, melhor, como os contos de réis. Por aquele caminho, ia convertendo a casa da Cruz de Pau numa “Biblioteca do Congresso”: não os mais de 100 milhões de espécies da Library of Congress, entre manuscritos, mapas, fotografias e outros materiais não livro, 10 mil incorporações diárias; “uma coisa mais pequena, mas, ainda assim, “suficientemente grande para o nosso meio” (palavra do senhor).

Pensasse ele, a sério, nestes números e, decerto, se haveria de converter à sabedoria de Don Rigoberto (Mario Vargas Llosa – Los Cuadernos de Don Rigoberto, 1997), possuidor de quatro mil livros e cem imagens, entre litografias, xilogravuras, desenhos, óleos, aguarelas – nem mais um ou uma, cada nova aquisição determinando a saída de um exemplar existente, inflexível quanto ao número de espécies das suas biblioteca e pinacoteca. Os livros e gravuras rejeitados, Don Rigoberto, o das orelhas grandes, queimava-os, para não sujeitar outros a lê-los e a vê-las.
Não lhe cabendo em casa tantos livros, A.B. fez uma selecção dos menos interessantes e, sem a sabedoria de Borges, nem a coragem radical de Don Rigoberto, levou-os para uma sua casa, para os lados de Sintra, e lá os deixou entregues a ninguém – mais rigorosamente, aos ratos. Está averiguado que foi a humidade, o pó e a bicharada que enterraram as hipóteses de a Cruz de Pau vir a ter o nome escrito numa futura lista das maiores bibliotecas do mundo. Consta, por outro lado, que é do acto do meu amigo que procede o nascimento da primeira comunidade de ratos de biblioteca da encosta norte da Serra de Sintra.

____________________________________

SOPA DE BELDROEGAS



Ingredientes:

4 alhos franceses

4 cenouras

2 cebolas

1 molho de beldroegas

2 colheres de sopa de azeite

Sal q.b.



Cortam-se os alhos franceses, as cebolas e as cenouras.

Levam-se ao lume no azeite, deixando refogar em lume brando.

Junta-se 1,5 litros de água morna, tempera-se com sal e deixa-se cozer.

Quando estiver quase cozido, juntam-se as beldroegas cortadas.

domingo, 12 de abril de 2009

Já puseste da saúde? ou as cartas para os tios de Lisboa

A avó começava a fazer o cerco muitos dias antes. Hás-de-me ir lá escrever uma carta para os teus tios", era a sentença repetidas as vezes necessárias, até me ter sentado numa cadeira, tendo à frente a mesa da sala e, nela, o papel da carta. A longa função ia começar! Na primeira linha, o local e a data, como mandava a regra: [Casal da Fraga, 12 de Maio de 1963]; nas seguintes, o [Meus queridos filhos] da ordem e os dizeres da saúde: [estimo que ao receberdes esta vos encontrais (sic) de saúde, na companhia de quem mais desejardes. Nós cá ficamos como Deus permite]. Ao lado, então, a avó já dormia, cumprindo-se, também nisso, o ritual associado às cartas para os tios, umas três ou quatro vezes, se tanto, em cada ano.
- Avó?!
E ela abria os olhos, para dizer:
- Já puseste da saúde? Diz que nós estamos bem.
E retomava o fio do sono, para desespero do infante-escriba, afrontado com a urgência do regresso à brincadeira.
- Isso já está, vó. Diga lá mais.
- Lê lá.
E ele lia aquele nada que estava escrito, avaliando o escrevente que, das quatro páginas do papel de carta, ainda nem uma estava meia. E a avó já dormia outra vez. Quando é que ele ia conseguir sair dali?
- Vó!
- Han? Ah, sim, diz que nós estamos bem.
- Já está, vó! O que é que escrevo mais?
A avó pensava um bocadinho e dizia, passando a mão esquerda pelos olhos e descendo-a pela cara:
- De noite, tinha assunto para quatro ou cinco cartas; agora não me vem nada à ideia. Diz que recebemos a carta dele e assim [Recebemos a vossa carta e por ela soubemos notícias e como estavam todos bem e com saúde, graças a Deus] e com isto se enchia a página da frente da carta.
Numa sacudidela, novas queixas da avó pela falta de assunto. E a função longe, longe de acabar.
- Vó, agora escrevo na folha a seguir ou salto?
- Como não me lembro o que é que se há-de dizer, salta logo para a outra. Pergunta lá se têm visto os teus outros tios.
Mansamente, a avó retornara ao sono e ele a não querer esquecer nenhuma palavra, que todas eram precisas para compor uma missiva com o mínimo de dignidade. Deixando em branco as quatro ou cinco primeiras linhas, escrevia: [Então tendes lá visto os vossos irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas, sobrinhos e sobrinhas e restante família? Então e eles estão bem? Estimo que estejam todos com saúde. Quando os voltardes a encontrar, dai-lhes recomendações nossas e dizei-lhes que temos muitas saudades de todos e que não se esqueçam de escrever à mãe e ao pai.]
- Vó, já escrevi dos tios.
Depois de uma pausa longa, acordada, a avó tornava-lhe:
- Ai que não me lembro mesmo de mais nada! E estou aqui a perder tempo, com tanto que fazer. Ainda tens muito para escrever? Deixa o resto dessa folha e passa logo para a última. Manda-lhes as despedidas, minhas e do avô.
[Sem outro assunto, despeço-me por hoje...]
O das letras nem cabia nele, gritando por dentro: "Malta, eu vou já para aí, é só acabar isto!"
[... com muitos beijos para todos, para os vossos filhos e restante família e cumprimentos a quem por nós perguntar. Recomendações e saudades do vosso pai e da vossa mãe, que vos deitam a benção, Francisco e Maria do Rosário.]
- Já está, vó!
- Já acabaste? Lê lá tudo.
E ele lia, ligeiro, com um pé já na escada, a avó acordada o tempo todo.
- Está bem - dizia ela. - Agora só falta fazer o envelope com a direcção. Onde é que eu guardei a carta que eles mandaram?
E levantava-se para ir à procura na gaveta dos garfos e das colheres, na mala da roupa, no baú do enxoval da tia mais nova, na mesa de cabeceira, no vão do postigo do quarto, em cima da mesa, ... em todo o lado, já a repetir os sítios. E era então que ele deixava de ouvir, lá fora, as vozes dos companheiros de bola.
"Lá se foi a desforra!"
____________________________________

SOPA DE CEBOLA

Ingredientes:

3 cebolas grandes

2 colheres de sopa de manteiga

1 colher de sopa de farinha de trigo

250 g. de fatias finas de pão

125 g. de queijo de bola

Queijo do Alentejo ralado, caldo de carne e sal - q.b.

Cortam-se as cebolas em rodelas finas e cozem-se lentamente na manteiga, até começarem a corar.
Salpicam-se com a farinha, mexem-se e cobrem-se com bastante caldo.
Deixe ferver 10 minutos, para apurar.
Num tabuleiro Pyrex põem-se em camadas alternadas as fatias de pão torradas, fatias de queijo e colheradas de caldo com as cebolas, até terminarem os ingredientes secos.
Cobre-se tudo com o resto do caldo feito com as cebolas, que é indispensável ser abundante para as sopas não fiarem secas e duras.
Polvilha-se por cima com o queijo ralado e mete-se em forno forte durante 15 minutos para a superfície gratinar.


domingo, 5 de abril de 2009

Azul ou vermelho, as cores da escrita, e depois a sopa de favas

A escola era ali na Praça, o centro do mundo conhecido, que a distância ainda estava por descobrir e o infinito do céu terminava, afinal, no recorte ondulado dos cabeços e vales da serra em volta.

Ela sentava-se à secretária; atrás, na parede, os dois presidentes - à direita, o do Conselho; o da República do outro lado, um Cristo crucificado entre ambos. E ela escrevia, numa letra notável, cheia, redonda, de uma regularidade impressionante. Que espanto vê-la a escrever, a caneta preta e verde feita pincel de artista, o traço rigoroso, mas fluente, lançando ao papel palavras azuis, pontos, vírgulas e outros sinais.

Que escreveria ela, a professora, tão compenetrada e séria, convertendo o acto num exercício de enorme gravidade? Quando escrevia, ela não estava ali; era como se tivesse entrado em outra dimensão, numa imaterialidade sem tempo, imune à devassa de uns olhitos deslumbrados (seriam os únicos?) numa carteira da fila da frente. De vez em quando parecia despertar e, numa meia ausência, passava o olhar pela sala e repreendia algum, se necessário; ao dos olhitos, perguntava: "Então, não fazes o teu desenho?" E ele submetia-se, momentaneamente, para, logo depois, voltar ao mesmo. E isto haveria de se repetir, uma e outra vez, até ela dar a obra por acabada, numa profusão de azul cosida ao branco do papel.

O traço, ao meu pai, saía-lhe visivelmente mais espesso, tanto na pedra, como na madeira. O lápis grosso afiava-o com a navalha. Gostava de lhe ver o encarnado na orelha (o azul, nem tanto), como em tempos vira ao senhor Fernandito, mestre carpinteiro de tectos e soalhos, o número um na armação do forro de uma casa. Ainda estava para nascer outro igual. O primo Clemente até podia sê-lo, não fora o estrago que nele fazia o vinho, e, pior, nunca se lhe viu um lápis na orelha, sequer na mão - riscos, se era preciso serrar direito, fazia-os com um prego. Uma heresia!
______________________________________
SOPA DE FAVAS

Ingredientes:

1 kg de favas
1 cebola
3 colheres de sopa de azeite
50 g de arroz
Sal q.b.

Leva-se uma panela ao lume com o azeite e a cebola picada, deixando refogar.
Junta-se a água necessária e as favas descascadas e lavadas.
Tempera-se com sal e deixa-se cozer.
Finalmente, deita-se o arroz, deixando acabar de cozer.