domingo, 1 de maio de 2011

Ainda na pista de Javier Mariño - A paixão das primeiras edições assinadas (parte 2)

Confessar que voltei ao bar da travessa da Água de Flor não será propriamente uma vergonha; ainda assim, saibam que foi num dia de grande abatimento físico e moral que o Agostinho Frade me arrastou (é uma forma de dizer) para aquele antro, uma quinta-feira. Eu não estava no meu juízo – um homem de certa compostura, vestido como se fosse a ver Deus, acompanhado por um tipo com um ar desgraçado (posto que sem cheiro, apesar dos quatro dias já passados sobre a barrela semanal, nos Banhos de São Paulo, ao Cais do Sodré), para o baixote e sobremaneira peludo, envergando conjunto de camisa grená-laranja e calça preta, mocassins cremes e meias também pretas. Um mimo, pese embora a ausência de barba, ou bigode.

No Lindoso, não havia onde pôr um pé e a animação era grande. Sentámo-nos perto da entrada, bem apertados, por falta de espaço, e ele encomendou bebidas – uma vez, outra e não sei quantas vezes mais, sempre ele; a mulher que trazia as bebidas, com um vestido azul a denunciar-lhe a barriga indecente e o excesso de carnes, não tinha um minuto de descanso, entre actos de serviço “sempre-a-aviar” e respostas aos desafios e apreciações que lhe chegavam de todos os lados – tudo no maior respeito, pois sendo a casa de gente séria, ali não se admitem faltas de respeito a quem trabalha. Um pouco aturdido com o ambiente, bastante quente e suado para o meu gosto, praticamente sem espaço para me mexer, que me deixei ir na conversa, quando se desatou a língua ao meu companheiro. “Não sei já te falei dela”, começou ele, em tom meio íntimo, demasiado próximo do meu ouvido, referindo-se à mulher que todas as quintas-feiras à noite fazia encher aquele bar da travessa de Agua de Flor, ao Bairro Alto em Lisboa. Tinha sido por ela que o ex-futuro padre me levara ali, e eu convencido que ia por causa do Guedes e do “meu” livro de don Gonzalo.


Tinha o nome de Rosa e uma cara que era só olhos – grandes, provavelmente cinzentos, capazes de cegar um pobre com fome. Movia-se com grande à-vontade entre todos aqueles homens, na cara um ar místico digno de Santa Juana de la Cruz. Não parecia ser mulher daquele tipo de ambientes; de igreja, sim, sem dúvida.

Extraordinária a altivez daquela mulher, movendo-se entre as mesas apinhadas de homens, todos a quererem ser servidos por ela, batendo-se por uma palavra sua ou por um olhar, comendo-a com os olhos, ela tão inacessível quanto desejada. Vinha todas as quintas-feiras, depois das onze, quando a casa já estava a rebentar pelas costuras e nessas noites trabalhava-se até muito mais tarde, as bebidas e as mulheres, mesmo as mais velhas e gastas, sempre a saírem.

Frequentava Santa Isabel; sendo nova na comunidade, era estimada por todos; sabia-se que, durante a semana, cumpria um estrito programa de boas obras, visitando os doentes. Fiel ao mandamento de “não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”, guardava recato sobre essa espécie de penitência, que não deixava de intrigar mentes mais analíticas, antes mesmo de o número de doentes (homens) acamados da paróquia ter aumentado duas vezes, uma torpeza a ser desmascarada no futuro.

Chegou a bichanar-se que ela se deitava com eles, os velhos das casas aonde ia, ou lhes mexia por baixo dos cobertores e até se falava de quanto recebia por cada visita e de coisas que lhe davam e das propostas para lhe porem casa, comentários a que ela respondia encolhendo os ombros, sem dizer nada, cada um ficando no que lhe parecia. Que, em boa verdade, até eu, depois de a ver, tenho a certeza de que, mesmo velho, só um cego não se quereria deitar no mar daqueles olhos, inquestionavelmente verdes para uns, para outros sem dúvida azuis, nem que fosse para neles se perder.

Que nada disso, confessava-me o "padre" Agostinho, à saída do Lindoso naquela quinta-feira: ela ia às casas dos velhos para lhes fazer companhia, se já não podiam sair de casa, a dar-lhes conversa, com a bênção da família chegada, num caso ou noutro a ler-lhes as passagens dos seus romances preferidos ou de algum velho livro de religião, tudo – sempre – na maior decência; se tanto, uma carícia nas costas da mão, descendo do pulso até à ponta dos dedos, ou uns afagos por cima da roupa de quarto aos acamados, mas sempre – ele podia jurá-lo – na maior pureza de actos e pensamentos.

Num excesso de intimidade, foi explícito sobre os seus planos de vida a dois, com ela, no recato de Santa Rosa do Douro, ou do Zêzere, não estou certo; senão, que se havia de matar. Na despedida, perguntou-me pelo Guedes, se sempre o tinha encontrado, para acrescentar com a dignidade e convicção possíveis num bêbado: “Depois de te falar dele, da outra vez, soube cá umas coisas do tipo, que espero sejam mentira; se não, vai ser muito mau para ele. Palavra de Agostinho.”

domingo, 17 de abril de 2011

[XN] Quase cem anos antes, visitação e devassa em São Vicente e outras terras

São as denúncias que alimentam a Inquisição e um dos meios de as obter é levar os que são presos, por culpas de judaísmo, a denunciar conhecidos e parentes. Mas há outros meios, como seja enviar um visitador a uma terra, para recolher denúncias.
Foi assim, no ano de 1617, na vila de São Vicente. E isto mesmo fizeram em todo o bispado da Guarda, entre 1607 e 1625, no tempo dos senhores dom Filipe II e dom Filipe III.
No mês de Junho daquele ano de 1617 esteve o visitador do Santo Ofício, Simão Cardoso de Sampaio, na igreja do Convento de Santa Clara, acompanhado do escrivão; no domingo anterior, tinha havido procissão pelas ruas da vila, com a participação das autoridades civis e religiosas. Já então estariam afixados na porta da igreja matriz o Monitório, o Édito da Fé e o Édito da Graça, o primeiro com indicação dos crimes de judaísmo que deveriam ser denunciados - o descanso ao sábado e a celebração desse dia, os jejuns de segunda e quinta feira, a circuncisão dos rapazes, não se comer certas coisas, como toucinho, ou lebre, ou aves afogadas, nem peixe sem escama, ou a prática de rituais diferentes com os mortos, ou outra forma de abater os animais, a prática do grande jejum de Setembro, ou a benção dos filhos, pondo-lhes as mãos sobre a cabeça; também já fora publicado o Édito da Fé e o Édito da Graça, estabelecendo este que no prazo de 30 dias cada um se apresentasse a confessar culpas próprias e a denunciar culpas alheias; por esta via, recebiam indultos e, sendo achados culpados, se livravam de lhes confiscarem os bens.
Na igreja do Convento de Santa Clara, em São Vicente, apresentaram-se três pessoas, a conselho de seus confessores, para descarregarem suas consciências. Todas elas mulheres: Maria de Brito, casada com Constantino Fernandes, Guiomar Nunes e Maria Fernandes, ambas viúvas. Primeiro, juraram sobre os Santos Evangelhos dizer a verdade e guardar segredo perpétuo de tudo o que dissessem ou ouvissem em tal lugar, sobre qualquer pessoa que fosse, viva ou morta. Depois disso, o visitador mandou vir duas testemunhas, para que confirmassem as denúncias feitas pelas 3 mulheres, o que elas fizeram na Igreja Matriz.
Foram 15 as pessoas denunciadas pelas mulheres: Gaspar Mendes e sua irmã, Beatriz; Rodrigo Nunes, sua mulher Violante e a irmã desta, Clara; Clara Rodrigues e Beatriz, sua irmã; Simoa de Lucena, Gaspar Lucena e a mulher deste; Guiomar Nunes, Beatriz Fernandes, Maria Henriques, Branca do Porto e Ana Fernandes. Redigidos pelo escrivão da Visitação, Domingos Gomes, e assinados pelo escrivão e pelo visitador , Simão Cardoso de Sampaio, foram os mesmos remetidos ao Vigário Geral da Guarda, para que os enviasse ao Santo Ofício, para proceder "em conformidade".
Constança Nunes conhecia estas práticas, ao menos por ter ouvido contar, que a memória dessas atrocidades passa dos pais para os filhos e destes para os netos. Ao menos, para se acautelarem. Pelos mesmos anos que andaram em devassa em São Vicente, os da Inquisição fizeram outro tanto na vila de Idanha-a-Nova, a terra de morada dos pais e de nascimento de Constança.

domingo, 3 de abril de 2011

[XN] Segunda Estação - Constança Nunes na prisão: frio e medo


Com 50 anos, que eram quantos ela tinha, Constança Nunes era uma mulher velha quando foi presa, em Janeiro de 1706, no dia 13.Viúva de Francisco Lopes, levaram-na de São Vicente sabia lá ela para onde – tanto podia ser para Coimbra, Lisboa ou Évora, sendo que qualquer desses destinos era tão mau como os outros.

Ia acusada de praticar a religião dos judeus, sozinha ou com outras pessoas, um crime contra as leis do Reino.
“Tenho medo. Não é tanto da escuridão deste lugar, nem da fome e sede, nem dos bichos que por aí andam, nem dos barulhos que se ouvem à noite; nem mesmo do mal que me queiram fazer – tudo isso, sendo medonho, eu sei que sou capaz de aguentar. A ideia da morte também não será, que não me dá medo pensar que vou morrer. Não sei porquê, se será uma razão ou mais que uma, mas sinto um medo de morte. O frio também é muito e enorme o desconforto e a falta de tudo; o corpo é como se não fosse meu. Ouvi dizer que estou nos Estaus, no palácio deste nome – a filha de um sapateiro de Idanha-a-Nova a morar em Lisboa, num palácio! Mais propriamente, nos fundos do palácio, umas masmorras penetradas pelo bafio e a humidade. Ontem, sentia a cabeça a rebentar, mas hoje está pior; penso nos filhos e nos parentes, e na desgraça da nossa vida. E choro.”
Cristãos-novos é como lhes chamam, há duzentos e tantos anos, desde que o rei D. Manuel os mandou juntar em Lisboa, amontoando-se uns vinte mil no Palácio dos Estaus, ao Rossio, onde os aspergiram com água, declarando-os por esta forma baptizados e convertidos à religião cristã. Sem o pedirem, ou sequer desejarem, tinham entrado na condição de judeus, com a promessa de embarcarem em segurança para outro país em que os tolerassem, saindo de lá cristãos-novos. E não somente eles, mas todos os judeus portugueses e os seus descendentes. Muitos outros tinham sido baptizados e convertidos à força, e, sendo menores de 14 anos, tirados aos pais e entregues a famílias cristãs.
Quem primeiro prenderam em São Vicente foi Maria Nunes, no dia 12 de Abril de 1704, e três dias depois levaram sua irmã, Isabel Henriques Nunes; depois, em Novembro do mesmo ano, o irmão de Constança Nunes, Antão Vaz Ribeiro, no dia 7, e, no dia 10, a mulher deste, Isabel Ferreira. Uma razia naquela família, e em São Vicente, onde todos eram moradores, sendo que Maria Nunes e Isabel Nunes de lá eram também naturais. O nome de Constança Nunes aparece nos processos de todos eles na Inquisição de Coimbra; nos termos da justiça inquisitorial, na condição de denunciantes, aqueles são dados como testemunhas de acusação no processo de Constança Nunes, na Inquisição de Lisboa. Enfim, o modelo de denúncia secreta a funcionar em pleno, alargando em contínuo o raio de acção do Tribunal do Santo Ofício, em Portugal.
“Depois do meu irmão e outros parentes, agora sou eu a estar presa, e depois serão outros e mais outros. O meu nome o terão arrancado a alguém, que não sei quem é, se morto ou vivo. De mim, hão-de querer arrancar outros nomes, de gente que comigo tenha guardado o sábado e feito o jejum grande dos judeus, e saber se rezámos as orações dos cristãos ao nosso modo. Antes, já me terão tirado os bens. Em tudo isto eu penso, aqui cheia de frio. E tenho medo do que aí vem.”

domingo, 27 de março de 2011

O fascínio das primeiras edições assinadas

As mãos pequenas e sapudas, com restos de tinta ou de estuque, que ele ia raspando com a unha do polegar da mão direita, identificavam-no como operário, estucador ou pintor de móveis; não parecia nada o Guedes que eu procurava. O local também não era dos mais óbvios para tratar de livros, que era a razão de eu ali ter vindo, ao número 38 da travessa de Agua de Flor, por coincidência o mesmo bar frequentado pelo Jesus, nos seus primeiros anos de Lisboa.

O nome do estabelecimento estava pregado na parede do lado de fora, num letreiro em muito mau estado, e para entrar afastava-se uma cortina grená que servia de porta nas horas de expediente. A mesma que dera passagem a Esteres, Rosas, Judites e outras profissionais do meio (que tinham feito da casa uma das mais afreguesadas do bairro), ao Paulo de Jesus e à mulher do cabelo preto – dizia-se espanhola e declarava chamar-se Mercedes – que, durante dois a três anos de rédea curta, lhe interditou o acesso a outras mulheres e o trouxe lavadinho, bem comido e a cheirar bem, animando-lhe ainda a boa vida com uma cena semanal de ciúmes, a cobrar-lhe as idas aos Alunos de Apolo, nos sábados, precisamente o dia em que as senhoras do Lindoso Bar tinham mais saída. Até um dia: “Passei o táxi, estás a ver”, disse-me em data incerta, já chefe de família, ali no passeio em frente do Almarjão (mestre livreiro, para que conste); “deixei a vida e entrei na Polícia de Costumes com carta de chamada do meu primo Rui. É verdade: ter uma mulher na praça é melhor do que ser dono de um táxi, mas passa-se muito; e ser uma autoridade é outra coisa, outro respeito. E dá para ter família, entendes?” Eu compreendi e nem sequer estranhei ver o nome dele no jornal, no tempo em que o tribunal de Santa Clara escreveu páginas notáveis na justiça pátria, convertendo torcionários do tempo da outra senhora em escriturários e motoristas, apenas honestos, amantes da ordem e tementes a Deus. Ele foi um desses. Ao que sei, continua a portar-se como um bom cristão e, apesar de uma trombose que teve, é o principal organizador dos encontros anuais do pessoal da Companhia 237, que fez serviço em África, em 63.

“O Pablo e o Guedes chegaram a ver-se lá no bar da Travessa, mas, se lhes perguntares, nenhum conhece o outro”, disse-me o José Frade, que chegou quase a ser padre e foi alferes em Angola, onde conheceu Jesus. “Se não tiver o livro que procuras, o Guedes arranja-o, podes ter a certeza. Mas se queres ter sorte, não fales no meu nome, nem ligues ao aspecto da casa, nem à pinta do homem”, concluiu o meu alferes, a despachar-me.

O padre Frade sabia do meu interesse em primeiras obras assinadas pelos autores; já me tinha referenciado umas tantas e chegara mesmo a oferecer-me, por um valor muito acima das minhas posses, o número de estreia da revista Orpheu, que encontrara numa “casa amiga”, no Porto, assinada pelo Pessoa e pelo Almada Negreiros. Também ele parava no Martinho, onde só mexia, sem comprar nada, para desespero do dono da casa, que se lhe referia, geralmente, em termos pouco elogiosos.

Carlos Martinho, o meu livreiro de confiança, não trabalhava com primeiras obras assinadas; mas sabia de casas onde eu poderia encontrá-las e, a pedido, encaminhava-me para lá. Quando lhe falei no tal Guedes, não reagiu: fiquei com a impressão de que não conhecia tal gente.


Uma certa tarde, depois de passar a cortina grená que tapava a entrada do bar, fiquei no ponto de mira do homem e das duas mulheres, cada um sentado em sua mesa. Chegado àquela hora, eu só podia ir ao engano: os fregueses só começavam a entrar mais tarde, para frequentarem as senhoras, mas a casa deixava vir mais cedo as que quisessem, para estarem ali entretidas na conversa, descansando do trabalho da noite, sem filhos a puxar-lhes pelas saias, nem homens em cima. Nessas horas, aquelas damas meio gastas pelo muito uso não falavam de trabalho e todas usavam os nomes de baptismo, num ambiente de paz doméstica, em que não se estranharia ver uma delas, com um pano de linho no colo, semeando nele passarinhos azuis ou flores encarnadas e verdes. Guedes nunca parava ali a outras horas. Mesmo de manhã, antes do trabalho, e depois, o seu poiso era na rua da Barroca, no Ferra-Mulas, com o cordial da ordem ao mata-bicho e uma zurrapa meio doce a fazer boca para a refeição, antes da uma. Isto, nos dias de semana, pois nos domingos (“dia de banho, de ceroulas lavadas e de cuidar da canalização”, no seu dizer, com uma piscadela de olho) ninguém o via.

José Guedes pareceu um pouco importunado por ter de falar de trabalho fora do horário de expediente, mas lá foi ouvindo ao que eu ia e quem era o objecto da minha cobiça: “Javier Mariño”, o livro de estreia em ficção de Torrente Ballester, publicado pela Editora Nacional, de Madrid, em 1943. “Não tenho ideia do que procura”, foi-me ele dizendo; “se, como diz, é uma primeira obra, proibida, há-de ser difícil de arranjar." Para depois acrescentar: "Curioso, esse seu don (adivinhei-lhe um certo desdém nessa forma de se referir a Gonzalo Torrente Ballester, que considerei extensiva a este seu dedicado leitor, e não achei graça nenhuma), simpatizante falangista, a levar porrada da censura do Franco! De facto, não conheço e, por isso, não tenhas grandes esperanças, meu filho! Mas vou tentar.” O aperto que me deu no braço, a despedir-se, com um piscar de olhos para uma das matronas – entretanto, mais duas tinham-se juntado ao convívio de “antes da ordem da noite” – e aquele tratamento pretensamente íntimo irritaram-me bastante menos do que os remoques ao meu sacrossanto Ballester, afinal de contas com algum fundo de verdade.

De tão frustrado que estava, ao sair daquela espelunca, lembrando-me de umas certas apreciações de um livreiro meu amigo, a propósito do tal ex-futuro padre que me mandara àquele lugar, nem sei como não tomei a decisão de me ir confessar ao bom do Martinho, por me ter deixado arrastar por más companhias. Uma vergonha!

domingo, 6 de março de 2011

[XN] Prenderam Constança Nunes


Prenderam Constança Nunes. Tem à roda de 50 anos e não sabe ler, nem escrever, como as mais da sua idade e até mais novas. Moradora na vila de São Vicente, no bispado da Guarda, mas nascida em Idanha-a-Nova, o pai, João Mendes, sapateiro, casou-se aqui com Branca do Porto, sendo que antes fora casado com Leonor de Paiva, a mãe de Constança. Filhos seus, tem 2, um filho e uma filha.

Traziam um papel escrito os que a prenderam, diz-se que por causa de ser da religião dos judeus que mataram Cristo na cruz. Antes dela, Constança, o Tribunal da Santa Inquisição já pilhou cá, em São Vicente, outros seus parentes, homens e mulheres. Para onde a levaram, não se sabe.

Sim, ela tem alguma coisa de seu – uma casita e algo mais. Mandava o tal papel, com que a prenderam, que ela levasse roupa de cama, e roupa de uso, a que precisasse; e até 60 mil réis em dinheiro para seus alimentos, para ser entregue ao Alcaide dos cárceres secretos da Santa Inquisição.

Corre o mês de 9vembro de mil sete centos e cinco annos, reinando em Portugal D. Pedro II, nos livros de História chamado “o pacífico”.
[ Foto de José Teodoro Prata - http://dosenxidros.blogspot.com ]

domingo, 14 de novembro de 2010

O conde 100 milhões, o do "exemplar único" dos Sermões


Em circunstâncias normais, os caminhos do senhor conde nunca se cruzariam com os meus. Achei curiosa a sua entrevista àquele jornal diário, edição de domingo, arrumei-a na caixa do material efémero, e pronto, nada mais. Assunto arrumado e esquecido, não fosse o caso de a vida ter certas coisas.

No dia 30 do mês passado estive de novo com ele, na sua casa da Linha, a falar do mesmo livro. Como da primeira vez, o cão esteve sempre ali, a assistir; à entrada rosnou-me de forma desagradável, e à saída tentou ir-me às canelas. Sua Aristocracia continua a dar-lhe ordens em Inglês.

Paz do Amagal, o conde, vale para cima de 100 milhões, o montante da sua carteira de investimentos em empresas; em imagem, andará pelo triplo daquele valor. Cotado em várias praças europeias e norte-americanas, carros e casas constituem o restante património do senhor – a casa da família, em Mangualde, praticamente uma ruína deixada em herança pelo pai, agora restaurada, é o ex-libris patrimonial do actual titular; vale uma pequena fortuna.

Para lhe ilustrar o título, o ex-estudante de Cambridge decidiu agora fazer uma biblioteca valiosa. Disse-o com todas as letras ao tal jornal, onde o mostravam com um alfarrábio aberto, em inteira de pele, de rosto vistoso, possivelmente um tratado de religião do tempo de D. João V. Podia o senhor conde ter feito como um outro rico, também famoso, que mandou forrar um enorme escritório da habitação com estantes de parede inteira, totalmente preenchidas com umas largas centenas de lombadas brilhantes, agrupadas por temas, predominando as de cor vermelha, com ferros e letras gravados a ouro, havendo-as também azuis e castanhas; mas, não: livros a sério, mesmo sem serem muitos, queria o conde, raros e valiosos; ”se possível”, proclamava com humilde presunção, “duas ou três ou quatro obras que nem a Nacional, Coimbra e Mafra tenham”.

O meu interesse em ganhar dinheiro, vendendo-lhe aquele que passava a ser o único exemplar de uma edição princeps que os especialistas davam por inteiramente perdida, e alguns consideravam inexistente, pareceu-lhe trivial. Foi disso que falámos no nosso primeiro encontro. E nem o preço lhe pareceu muito elevado, a confirmar-se a valia do livro de que falávamos; teria, isso sim, eu compreendia, não é verdade, que falar com alguém, um entendido, só para ter a certeza de que estava a fazer a compra certa, pelo preço justo, não para confirmar o que quer que fosse, mas apenas para justificar o dinheiro que lhe pagava para o ajudar nestas coisas. Ah, e teria de ver o livro, que era o que, a partir daquele momento, mais queria. Num extremo de entusiasmo, declarou-me, em inglês, que me queria ver de novo, ali, o mais depressa possível. Posto o que, o rafeiro inglês e o conde de Alcatruz me conduziram à saída.

Também eu queria vê-lo. Liguei à senhora que me tinha rogado o livro, semanas atrás, num sábado de feira, no Largo de Santa Clara; em vão: “não está”, “ninguém sabe por onde é que ela anda, de vez em quando desaparece sem dizer nada”, “não, não somos família, a casa é dela, eu estou cá por esmola”, “se quiser deixar recado, se eu a vir…” e coisas do género, no primeiro telefonema e seguintes. Uma semana inteirinha nisto, todos os dias, sem eu dizer nunca ao que ia. Comecei a ver a vida a andar para trás. Cheguei a telefonar ao Martinho, meu supremo guia nesta coisa dos livros velhos, sem lhe abrir o jogo: “Se esse livro aparecesse aí no mercado, era a notícia de abertura de todos os telejornais! Até o grão-mestre da Maçonaria ia de joelhos beijar a mão ao cardeal-patriarca! Era bom, era, e que viesse ter aqui à minha loja! Agora o menino, sempre tão racional, também acredita que las hay? Deixe-se lá disso e venha mas é visitar o seu amigo, que tenho cá muita coisa boa que lhe interessa. Considere-se osculado, mê’migo. Mande sempre.”

Confesso que senti suores frios ao pensar que a senhora poderia ter-se evaporado. Com método, sem pressas, revi o filme dos acontecimentos: o nosso encontro, sem nos conhecermos de lado nenhum, à porta daquele alfarrabista acidentalmente fechado, por falecimento de uma pessoa de família, ela a abrir a mochila verde-azeitona e a tirar de lá o livrinho, com uma encadernação bastante cansada, mas com o miolo em excelente estado, a dizer numa voz sussurrada “Exemplar único”, e eu a confirmar, ali mesmo, a ausência de qualquer carimbo no livro e que tinha as páginas todas. “Como preciso de dinheiro urgentemente”, dissera ela, “vendo por 5 mil euros; com tempo, nos Estados Unidos, conseguia fazer trinta vezes mais”. Disse-me que sabia do que falava, acrescentando que não lhe perguntasse onde arranjara o livro, mas que estivesse descansado, porque não era roubado.

Quando me ouviu tartamudear a sugestão de lhe dar uma resposta, “digamos, daqui a uma semana”, ela percebeu que eu estava a pensar na velha história do vigésimo premiado. Mas, eu insisti que tinha de falar com umas pessoas mais entendidas em tais matérias e de receber uns dinheiros, acrescentando “afinal ainda é uma verba bastante elevada”. Nos olhos dela eu via claramente umas asas de anjo pregadas nas minhas costas, no momento em que me veio à ideia a entrevista do conde, vislumbrando que aquele podia ser o meu dia de sorte. Cinco dias, nem mais um, “descontando o domingo”, foi o prazo dado pela donzela, pelo qual eu lhe daria mais dez por cento.

Antes de falar com o conde, a primeira vez, eu já sabia que o livrinho cumpria os requisitos de Paz do Amagal –ausente das obras de referência dos livreiros-antiquários e dos catálogos das bibliotecas de livro antigo, toda a gente do meio, com quem falei, declarou como desconhecida a obra que eu me propunha vender ao senhor de Alcatruz.

Depois de uma semana terrível em que fiz tudo para a encontrar, passou mais uma semana, e nada. Atado de pés e mãos, num desespero, eu só não queria que o conde me procurasse. Telefonou-me no dia dos meus anos e fui lá estar com ele. Podia ter sido pior, confesso, mas foi muito, muito mau.

Estava feliz, o homem, quando me recebeu. “Sit”, ordenou ao rafeiro, que obedeceu; sem me cumprimentar, fez o elogio do livro que eu me propusera vender-lhe, pegando nele e afagando-o com as costas da mão direita, passando depois o polegar a todo o comprimento da lombada, da base para a cabeça, demorando-se nas nervuras, em movimentos lentos, de extrema sensualidade, que não interrompeu durante a nossa conversa.

Havia um forte contraste entre o conforto da sala-biblioteca do conde de Alcatruz, onde estávamos, e o desconforto interior que eu sentia em crescendo, que mal conseguia dissimular. Era claro para mim que tinha sido ludibriado pela donzela da mochila militar; mas, o ricaço e eu tínhamos versões diferentes daquela história. “Os senhores”, ia dizendo Paz do Amagal, pelos vistos referindo-se a mim e à donzela desaparecida, “os têm um modelo de negócio curioso, que não cheguei a perceber, mas vá lá. A sua sócia procurou o meu consultor; trazia o livro, este, de que o senhor me tinha falado. Fez um excelente trabalho, o Trindade; para além do que lhe dou todos os meses, pelo apoio que faz o favor de me prestar, acabei por lhe estabelecer um reconhecimento, digamos, uma comissão para esta compra, que ele fez finca-pé em não receber, mas que vai acabar por aceitar. É curioso o facto de o negócio, que estava a ser tratado directamente entre o vendedor e o comprador, o senhor e eu, ter sido concretizado por representantes nossos; não é a forma como estou habituado a trabalhar, mas funcionou, e isso é o que interessa. O livro é uma beleza e, ao que se sabe, exemplar único, por um preço justo, num negócio em que todos ganharam. Quanto aos 20 mil que me custou, digamos que paguei o preço justo”. Fez uma pausa e eu preparei-me para o assalto seguinte, que prometia maior violência. “Se foi uma estratégia para aumentar o preço, conseguiu-o, mas de uma forma –já que chegámos a tais pontos, deixe-me ser franco– lastimável. Quase diria, sem ofensa, muito pouco séria.” Dito isto, calou-se; eu estava na última, confesso, e ele deixou-me estar; estava à espera de mais violência, mas não. O conde poisou o livro e acariciou-o de novo, desta vez com a mão aberta, muito lentamente, com os olhos em mim. Um século depois levantou-se, apoiando as mãos nos braços da cadeira; o cão também já estava de pé. Sorria, no momento de encerrar a conversa, para dizer: “Enfim, senhor conde, as coisas são como são! No negócio dos livros, como nos outros, e em tudo na vida, estamos sempre a aprender. Agora vamos embora, que estes senhores têm mais que fazer! “ Foi o cão que me conduziu à saída.

Andei desvairado, uns tempos, capaz de cometer uma loucura na pessoa da donzela da mochila militar. Assim se tivesse deparado a ocasião, que motivação tinha-a de sobra; mas a dama não apareceu. Durante uma semana, ou mais, praticamente não comi e não me recordo de ter tomado banho; cheguei a dormir na rua; depois passou-me e, no regresso a casa, como novo, com o desaire do livro completamente varrido da minha vida.

“Esperava encontrá-lo aqui. Pensei que seria uma questão de tempo; mas demorou”. Não constava que eu conhecesse a senhora que tinha falado, mas o que dizia era verdade: eu ia àquele bar com uma certa frequência, mas tinha feita um intervalo tão longo que o barman me serviu a bebida do costume com uma pedra de gelo em vez de duas, como eu gostava. Ela estava atrás de mim quando falou de novo; a sua boca desprendia um bafo de álcool que seria suficiente para anestesiar um ser vivo dez vezes mais pesado do que eu. Foi então que tive a certeza de que já não queria vingar-me da donzela da mochila militar.

Nos minutos seguintes, só ela é que falou. Sem beber nada. Em resumo: o Trindade tem loja aberta em Lisboa (isso sabia eu, mas não que era ele – ou ainda é – o consultor do Paz do Amagal), onde a donzela o procurou ainda antes de tropeçar em mim, na Feira da Ladra. Falou-lhe no livro, sem lho mostrar, e ele, desde logo lhe disse que estava interessado na compra, mas que a donzela teria de lhe dar uns dois dias, antes de fecharem o negócio. “Provavelmente, para baixar a minha expectativa de preço”, acrescentou a minha companheira de bar, “falou da possibilidade de a mesma obra existir em Mafra, na Biblioteca Nacional ou em Coimbra, na Biblioteca da Universidade, o que, disse-o com todas as letras, baixará muito o preço – digamos, para um pouco menos de metade.” Voltaram a encontrar-se na loja do Trindade na data combinada, “com o trabalho de casa feito.” Quando ele lhe falou no exemplar da obra que existiria na Biblioteca de Mafra, tornou-lhe a senhora: “Este não é o livro de Mafra, meu caro senhor; não tem qualquer marca, como pode verificar.” Para o livreiro-antiquário, foi garantia suficiente. Acertaram então o preço da venda: 8 mil euros, em dinheiro, que ela recebeu na tarde do mesmo dia.

“E aqui estou eu. Há-de perguntar porque é que vim atrás de si. Explico: desde aquele dia, a minha vida tem sido um inferno; a todo o momento – de noite é pior –, penso que a Polícia me vai entrar em casa, para me levar presa por causa do desaparecimento do malfadado livro, de Mafra. Como já percebeu, eu sou uma incompetente nestas coisas. O meu pai, sim; com ele não haveria estas confusões. Ser filho de padre não é garantia de saber dizer missa, não acha?” Fez uma pausa, de descanso, para continuar, depois de suspirar na direcção do meu nariz. “Agora só quero que tudo acabe, preciso de sair deste pesadelo. Naquele dia, pedi-lhe 5 mil euros pelo livro; fique com ele sem gastar nada. Faça como quiser: guarde-o para si, ou entregue-o na Biblioteca de Mafra – mesmo se não for o livro deles, hão-de aceitá-lo. Também eles pensavam que o deles era exemplar único.” Calou-se e saiu, deixando-me um saco de plástico verde com o livro dentro.

“Sermones selectissimi”, o melhor livro saído dos prelos de João Barreira, "liureiro de sua alteza", é agora o mais valioso da minha biblioteca. O meu exemplar não tem qualquer marca ou sinal.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Tributo aos livros, de segunda a sábado




As carrinhas deixavam na paisagem um rasto castanho acinzentado. Mas, o que fazia delas objectos singulares era o recheio e não propriamente as cores, afinal, idênticas às das paredes e móveis das repartições públicas e as fardas dos polícias e dos servidores do Estado. O ponto de partida era a capital do império em fim de vigência, e o destino as zonas rurais. Carregadas de livros, para empréstimo, as carrinhas Citroën de chapa ondulada assentavam arraiais no largo ou praça da aldeia, tendo como pano de fundo um país atrasado, com a imprensa e a produção editorial enquadradas pela censura, uma taxa de analfabetismo próxima dos 50%, praticamente sem bibliotecas públicas e com índices de leitura estatisticamente irrelevantes. Chegaram a ser quase 50 as bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, movimentando mais de 300 mil leitores e emprestando, por ano, uns 3 milhões de livros.

Chegaram a ser consideradas instrumentos perigosos ao serviço da subversão social e política – além de prejudicar a vista, ler só faz mal às cabecinhas menos fiéis à rotina da obediência e toda a gente sabe que é nos livros que os “agentes do mal” põem certas coisas destinadas a minar os fundamentos da religião, da família e do Estado. Alguns funcionários dessas bibliotecas tinham ficha na polícia e as suas actividades eram acompanhadas criteriosamente; chegou a fazer-se chegar “a quem de direito” a conveniência de serem demitidos. É o que dizem os documentos conservados nos arquivos de algumas instituições muito importantes ao tempo, entretanto extintas.

Foi por causa das bibliotecas que R. C. passou muito mal entre os anos de 1958 e 1964. Prenderam-no, mas não exactamente por atentado contra a vida ou o património alheios, nem por andar a ler o “Cavaleiro da Imaculada” (de facto, só fundado em Janeiro de 1960). Ele já estaria referenciado há algum tempo – o Raul aparecia em certos sítios, dizia certas coisas e evidenciava certas preocupações, lia certos livros e certos escritos, além de acompanhar com certos indivíduos, também eles com nome nos registos da polícia. Tinha casado três meses antes.

“Eu andava na Escola Comercial, na altura” – é o Raul em discurso directo – e tinha assim um interesse pelas leituras”. Ele era dos que sentiam que “os jovens precisam de ler, a população precisa de ler”. Ele foi um dos obreiros da biblioteca na Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (na Cova da Piedade, Almada), onde juntaram Jorge Amado com Zola, Gorki e outros autores de referência, incluindo calhamaços de filosofia, para operários que sabiam ler – “coisas não muito complicadas”, acrescenta ele; para comprar livros para a biblioteca, puseram a imaginação e a vontade a trabalhar: recolhiam os que lhes davam, organizavam bailes e pediam por boca – no arraial da festa de Nossa Senhora da Piedade, lembra-se ele de uma das quetes mais rendosas alguma vez realizadas naquela freguesia da Outra Banda. E, atrás dos livros, vieram outras coisas: teatro, palestras, cursos de formação – um de corte e costura foi dos de maior sucesso na aldeia-vila predominantemente operária, no fim dos anos de 1950.

Ele tinha aquela ideia dos livros e a convicção do muito que eles podem fazer pela felicidade de cada um. Levar livros aos outros foi um projecto de vida que tratou de pôr em prática também no local de trabalho – mas, aí, não lho consentiram: a direcção do banco (o Montepio Geral) não autorizou que escrevessem a instituições e autores, a pedir livros, “porque o Montepio não tem necessidade de andar a pedir nada a ninguém”. Na terra da sua residência, depois da Sociedade Filarmónica, passou pela biblioteca da Cooperativa Piedense, uma colectividade com maior capacidade financeira e “uns rapazes jeitosos que gostavam da biblioteca, que gostavam de livros” e muitos leitores: “havia muita malta nova que lia, lia, lia”. Sob vigilância (e intervenções, amiúde) da polícia, guardiã de um regime que sentia a cultura como uma ameaça. Apesar disso, no conjunto das bibliotecas populares, Almada e Cova da Piedade contariam, ao tempo, com um acervo a rondar os 10 mil títulos.

Durante os anos da prisão, Raul fez o trajecto concebido pela inteligência da Situação para os “indivíduos da sua laia”, com os tratamentos adequados prescritos para o seu caso e estado, quiçá com o propósito de lhe limarem alguma aresta mais viva ou de lhe corrigirem algum defeito. Acaso na convicção de conseguirem tirar-lhe da cabeça a “mania dos livros”. Sem sucesso, apesar dos dois mil dias passados no Aljube e em Caxias (não estou certo se também em Peniche).

Costumo ver o Raul na biblioteca pública cá da terra, nos sábados de manhã. “Está lá todos os dias”, dizem-me aqui do lado, “passa lá mais tempo do que com a família.” Fala quem não sabe!

“É porque gosto, pronto!”, diz o Raul. “Noutro tempo, o que era preciso a gente esgadanhar para conseguirmos a milésima parte do que aqui há para ler. Porque é que venho cá todos os dias? Não, não é para recuperar o que não pude ler quando me tiveram preso, nem sequer para ter a certeza de que eles não conseguiram tirar-me a “mania dos livros”; tão pouco, para pagar, lendo, àqueles que, à custa de dedicação, inteligência e esforço, nos põem todos estes livros à disposição – que eles merecem tal reconhecimento. Mas, a verdadeira razão é outra, uma coisa muito minha”, acrescentou, calando-se a seguir.

Quando voltou a falar, o Raul exibia a paz de um sábio. “Sabe, meu amigo, em certos momentos, quando se está preso, tem-se um medo muito grande de enlouquecer; também passei por isso. Depois, um dia, não sei por que carga de água, tive a consciência de que isso já não me acontecia e descobri porquê – nas alturas mais difíceis, eu reconstituía, de memória, um livro que tinha lido, como se estivesse a lê-lo de novo. Umas vezes, bastava um livro para ultrapassar uma situação difícil; quando esta era mais demorada, depois do primeiro, usava um segundo livro. Sem eles, os livros, a prisão teria sido muito mais penosa. Por isso é que venho aqui todos os dias – para lhes agradecer.”